Talvez você
ache estranho que eu fale que existe uma raiva natural. E se existe
uma raiva natural, também deve existir uma raiva “artificial”.
Aprendemos desde pequenos que a manifestação da
raiva não é legal, deve ser contida. Aqui no Brasil
isso ainda é mais forte do que em meu país, a Alemanha.
Ao alemão é mais natural mostrar seus sentimentos,
e por isso ganhamos o apelido de “duros” e “bravos”.
Já o brasileiro tem o hábito de evitar discussões,
confrontos e passa um jeito mais amável. Mas isso tudo
é cultural e não existe o jeito certo e o jeito
errado: cada povo é diferente.
Como sempre
faço, não desejo julgar o comportamento externo,
o que o outro faz ou deixa de fazer: o meu trabalho me faz sempre
sugerir que você olhe para dentro de si, e perceba. Neste
caso, perceba como a raiva atua em você! É difícil?
Bem, pode
ser, e vou explicar o porquê: disseram, lá num passado
um pouco distante, que gritar com o irmãozinho está
errado. Lembra aquele dia em que o papai prometeu e não
cumpriu: e a gente começou a ficar com raiva e levou a
maior bronca? E quando o jovenzinho levanta a voz para o patrão
e é mandado embora... Pouco a pouco, começamos a
colocar na cabeça que expressar a opinião e mesmo
perder a cabeça de vez em quando é perigoso! Pronto!
Está feito o estrago! Cria-se um impasse: não gostamos
de algo mas não falamos. Ou se falamos e expressamos, sentimos
culpa. Não é assim?
Convido você
novamente: olhe para si, nos momentos em que está com raiva.
O que é melhor: engolir ou expressar? Bem, depende de cada
um. Só que, se você engolir a raiva constantemente,
que é uma forma de energia, uma hora ela sairá:
seja em forma de explosões em momentos e situações
que não têm nada a ver, ou em forma de doenças
psicossomáticas. Daí você me pergunta: mas
uma pessoa que expressa a sua raiva o tempo todo, não é
prejudicial aos outros?
Vamos
dizer assim: é desagradável, com certeza. Mas, pela
minha experiência, a pessoa que expressa a raiva o tempo
todo, não está expressando a raiva com consciência,
senhor dos seus atos, sente muita culpa, se reprime, e cria um
mecanismo contínuo: não gosta de algo-raiva-culpa-repressão-não
gosta de algo-raivaa-culpa... e assim vai.
Expressar
suas emoções conscientemente é sabedoria.
Não apenas raiva, mas amor, ternura, medo, tristeza, solidão,
alegria. Se algo não me agrada, não me agrada e
por que não posso expressar? Depois disso, passou... sem
culpa, sem repressão. Se estou triste, estou triste...
Se estou alegre, estou alegre. A pessoa que age dessa forma começa
a se aceitar plenamente e gradualmente suas emoções
ficam equilibradas.
Minha sogra
é um bom exemplo disso. Uma senhora que todos olham e falam:
nossa, que senhora gentil. É o que ela aparenta, pois está
sempre sorrindo, servindo aos outros... Bem, minha sogra é
um... vulcão! Pela sua criação, e porque
quis ser assim, ela se condicionou a sorrir o tempo todo, mesmo
quando não quer, e a servir os outros, esperando que os
outros percebam isso. Ela não gosta de muitas coisas, mas
não se expressa. Até que a coisa explode! Bum!!!
Bem, na verdade, explodia...
Começamos
a trabalhar e a perceber, em conjunto, cada sentimento envolvido
no dia-a-dia. Tem a necessidade de servir alguém, quando
você não quer? Não? Então, deixa isso.
Tem a necessidade de sorrir quando está triste? Não?
Joga fora! Tem a necessidade de explodir com alguém que
não tem nada a ver com as coisas que você engoliu?
Ah, você não consegue... então, exploda! E
esqueça, não fique com culpa... Tem a necessidade
de ser dura no seu trabalho, porque o companheiro foi incompetente?
Ah, isso tem... Ah, mas você não impunha respeito
no trabalho? Que tal agora colocar dureza no momento certo?
Resultado:
em pouco tempo, ela está mais leve, não tem explodido,
ficou muito mais competente no trabalho, não se sente culpada
e está mais feliz...
Raiva natural
ou raiva artificial. Deixei para o final pra explicar isso. A
raiva natural é aquela onde o bicho-homem é realmente
ameaçado, sua vida corre risco e é necessário
reagir, defender-se. Quantas vezes ocorreu esta situação
na sua vida? Acredito que poucas.
Todas as outras
raivas são artificiais. Devemos contê-las? Não,
devemos olhar nos olhos dessa raivas, expressá-las e deixá-las
perderem a força, naturalmente. O homem não é
um ser ruim. Não existe nenhum ser ruim. No íntimo
de cada um, existe um manancial de ternura, amor e é esse
manancial que deve ser estimulado a se expor. O potencial para
o homem ser feliz e realizado está presente agora, neste
instante, e não é necessário coibir nada,
reprimir nada, condenar nada... mas simplesmente aceitar-se em
plenitude e desapegar-se dos conceitos de certo e errado que você
tem sobre si mesmo.
Você
nunca esteve errado em nenhum momento da sua vida. E também
nunca esteve certo. Certo e errado são conceitos que não
levam à realização. Você deve se ater
somente numa questão: do jeito que está hoje, estou
satisfeito? Se não está, em vez de buscar o certo
e querer punir o errado que você acha que existe em si,
simplesmente comece aceitando tudo. Naturalmente, a realização
começa a tomar conta do seu ser porque o seu ser é
perfeito!