Olá!
Respondo sua questão com muito carinho.
Sei muito bem do que está falando. Não é
fácil manter um bom sentimento com os pais, principalmente
se sentimos tanta carência em relação a eles.
E nem estou me referindo àqueles pais que maltrataram literalmente
os filhos, mas àqueles que, no momento em que o filho mais
precisava de um elogio, simplesmente viraram a cara. À
mãe que, ao ver a filha toda orgulhosa com a sua primeira
saia mais curta, sem entender a grande transformação
que estava ocorrendo naquele momento – o surgimento de uma
mulher e o adormecer de uma criança, rude e seca, dispara:
que pouca vergonha! Minha filha não anda como estas vagabundinhas
por aí! Ah, como dói! O que mais a menina queria
é dizer: mãe, sou uma moça! E a mãe
não viu.
Mas vou lhe dizer uma coisa: é através destes e
outros obstáculos, às vezes rudes e incompreensíveis,
que a vida faz o ser humano se mexer. Não fosse isso, a
maior parte de nós permaneceria parado, sem desafiar, sem
buscar respostas e soluções. As pessoas procuram
mudanças porque algo está doendo dentro delas. E
sabe de uma coisa? Isto é muito bom. É o primeiro
passo da mudança. Antes que se chegue a este estágio,
é comum permanecer parado, jogando a responsabilidade e
a culpa pelas nossas dores em cima de outros.
Vou contar um pequeno caso:
Uma
moça costumava culpar a mãe porque não era
aceita do jeito como ela era: isto é o que ela me falou.
Cada atitude que a jovem tomava, sentia-se contrariada e incompreendida
pela mãe. Esta era dura, cheia de razão, uma mulher
de gênio difícil. E a filha sentia-se atingida pessoalmente
pelas negativas, reclamações, brigas, chantagem
emocional e intrigas que ocorriam em seu lar, a seu respeito.
Em tudo ela estava errada! O brinco estava errado! As palavras
eram deselegantes! O piercing, ridículo! O namorado, um
viciado... A roupa, um desastre! As notas, inferiores ao irmão!
E mesmo os momentos em que ela se esforçava deliberadamente
para agradar a mãe, surtia efeito contrário. Dava
um presente, ao invés do obrigado, vinha uma avaliação.
Se era caro: de onde você conseguiu dinheiro pra comprar?
Se era barato, a resposta era: humn... Se fazia as tarefas de
casa, sempre havia um lugar que não estava bem limpo. Se
tirava uma nota acima da média, o questionamento: você
andou colando?
Essa
moça só queria ser aceita pela mãe, porém,
nada dava certo. Nenhum agrado, nenhum sucesso que ela obtivesse,
nada era bom o suficiente. Até ao realizar o grande sonho
que a mãe, declaradamente, mantinha sobre ela, que era
o casamento e filhos, nenhum pingo de aproximação
houve entre elas. A dor da rejeição continuou no
peito desta moça e ela não conseguia se livrar deste
peso. Por que ela não me vê? Por que ela não
me acolhe, não diz palavras bonitas, não me lança
um olhar carinhoso?
Os anos se
passaram, esta moça já era adulta, e em determinado
momento ela quis trabalhar dentro de si o sentimento de não
se achar boa o suficiente, não se valorizar perante os
outros, tanto nos relacionamentos como no trabalho, e veio procurar
a constelação familiar sistêmica. Lá
estavam os personagens dispersos na sala: um representante para
a mãe, um para o pai, um para seu irmão mais velho,
e os movimentos sistêmicos ocorrendo por si só, quase
sem a interferência minha, como facilitadora. O pai não
estava presente para a mãe. Nem para o filho. Nem para
ele mesmo. Buscava algo, identificado com uma dor sistêmica
que ele nem tinha conhecimento, o que fez ele não estar
presente dentro da própria família, embora convivesse,
aparentemente, 24 horas dentro do lar. A mãe, igualmente,
tinha uma profunda dor, e não estava presente nem no casamento,
nem na educação dos filhos. Isto dói muito
nela, aumentando mais a sua própria culpa. Ela não
desgostava da filha. Pelo contrário, mas por se achar errada,
culpada, a mãe afastava a filha, ao invés de acolhê-la.
Um pai ou mãe só repele o filho quando não
se acha merecedor ou capaz de cuidar dele. Isto é amor,
um amor que transcende todas as crenças que os homens criaram
a este respeito! É o amor sistêmico, que busca se
reequilibrar dentro do sistema familiar.
A
moça desatou num choro silencioso, mas profundo. Era um
choro de reconhecimento a este amor, que antes ela nunca permitira
perceber, por estar tão preocupada em ser aceita pela própria
mãe. Mas... ela nunca se deu ao trabalho de aceitar a própria
mãe como ela era. No íntimo, sempre quis uma mãe
melhor, diferente da sua. A dela era errada, não era boa
o suficiente. E, é claro, ela merecia uma mãe melhor...
Agora
ela entendia tudo, não com a cabeça, mas com o coração.
Percebeu que por detrás daquele sentimento duro, de rejeição,
havia um amor maravilhoso, restaurador. As feridas da rejeição
começaram a se cicatrizar neste instante. Este breve instante,
mágico, onde o insight cura, permitiu à ela enxergar
a mãe com outros olhos, e se colocar simplesmente como
a filha que recebe o que a mãe tem a dar, em vez de exigir
o que ela achava que merecia. Ao tirar os olhos desta dor, percebeu
que existia uma vida toda a ser vivida, e muita coisa a ser conquistada,
tanto nos relacionamentos, como profissionalmente.
Os
pais dão e os filhos recebem. Estes se colocam acima dos
pais quando querem determinar o que devem receber e de que forma.
E isto é contra a ordem de amor que comanda os sistemas
familiares; significa que desta forma o amor está impedido
de fluir dos pais para os filhos, provocando sofrimento para ambos,
mas principalmente ao filho. Tomando a vida dos pais como ela
é, o filho se liberta da mágoa e está começando
a abrir espaço para viver e assumir a própria vida.
Esta é a experiência que a constelação
familiar sistêmica proporciona, e é libertadora!
Espero
poder ter lhe ajudado. Abraços carinhosos,
Theresa
Spyra