Quando
estou trabalhando com constelação familiar sistêmica,
percebo que algo muito mais forte está atuando sobre as
pessoas envolvidas. Tão forte que as conclusões
habituais que a mente costuma ter, não as tenho.
Clientes aparecem com várias questões: problemas
de relacionamento, financeiros, mágoas, dificuldades profissionais,
medo, até esquizofrenia e derrame...
Olho para eles e não vejo pessoas com problemas. Não
existem absolutamente problemas. Sempre após o dia, vem
a noite, e após a noite, vem o dia outra vez. Porém,
sinto e respeito a dor que o cliente sente. Esta dor está
ali simbolizando um profundo amor, e cabe a mim permitir que esse
amor aconteça, durante o trabalho, e a dor seja aliviada.
O
cliente pensa que existe um motivo racional para aquela dor, e
geralmente existem culpados. Mas o universo pensa e funciona de
jeito diferente: ele apresenta problemas nas vidas das pessoas
para que elas possam olhar para os que foram excluídos
em seu sistema familiar. Às vezes um filho abortado, às
vezes um parente que, por ter tomado atitudes desonestas, ou por
uma doença grave, foi afastado do seio da família.
Às vezes alguém que cometeu um crime teve o seu
direito de pertencer ao grupo familiar negado. E esta dor da exclusão
não se extingue: passa de geração em geração,
até que alguém com um poder de amar muito profundo
acolha esta dor e assim, ele acaba honrando e acolhendo, de certa
forma, a exclusão do passado.
Mas
não é necessário manter a dor em si. A dor
lembra que algo ocorreu e alguém foi esquecido. É
incrível como existem pessoas esquecidas em cada sistema
familiar! Todas elas clamando por serem lembradas e pedindo o
seu direito de pertencer àquele grupo...
Por
isso, olho muito além da dor e do problema do cliente,
já que ele não representa exatamente um problema,
mas sim, uma oportunidade do cliente demonstrar o seu grande amor
a um antepassado. E busco, intuitivamente, perceber onde existem
estes buracos provocados pela exclusão. E sempre eles aparecem,
durante a constelação. E então, uma explosão
de emoção e energia toma conta dos participantes.
E
trabalhamos para que os excluídos sejam aceitos. Assim
ocorre o reencontro do cliente com o seu sistema, e a dor automaticamente
cessa.
É
isto que chamamos alma, em constelação familiar
sistêmica: uma informação que percorre todo
o sistema familiar, despersonalizada, não individual, com
uma lógica muito diferente da lógica que a mente
humana acredita: ela avisa às pessoas que necessitamos
perceber, em primeiro lugar, os excluídos. Olhar para eles,
aceitá-los, não importa o que tenha acontecido.
Olhar sem julgamento, sem dizer que alguém é culpado,
sem falar que existe o certo e o errado. Ir além da mente
que julga e condena. Somente assim conseguimos mudar nosso destino,
cicatrizar nossas feridas e amar profundamente o outro. Este é
o único caminho para a paz de espírito: o amor profundo
que transcende os conceitos de justiça, de certo e errado,
de problemas, doenças e morte. Um amor que pode abraçar
o útil e o inútil, o rico e o mendigo, o doente
e o são, o honesto e o desonesto, o vivo e o morto... Tudo
está em nosso sistema.
Assim,
abençoada as dores e os problemas, que nos lembram de amar
os excluídos, e nos dá a chance de libertar-nos
do sofrimento, reconhecendo e abraçando o próximo...
Theresa
Spyra