Oito
entre dez clientes que atendo estão com problemas no relacionamento
afetivo: ou romperam, ou estão em vias de... Fico pensando:
o que é que está acontecendo com as pessoas? Dizer
que antigamente as relações eram mais sérias
não é resposta... E dizer que hoje elas são
mais livres, bem, na verdade, não ajuda nada.
Vim da Alemanha. Lá, sendo um país de primeiro mundo,
proporciona que as mulheres tenham ainda mais liberdade de comandar
suas vidas, falando em termos de dinheiro, e isto faz com que
os homens sejam necessários somente para procriar. Mas
será que isto é bom? Será que é isto
que está acontecendo aqui?
Na verdade, financeiramente, o papel masculino está perdendo
seu lugar. E aí é a grande questão: um relacionamento
que só se mantém pela questão do dim-dim,
quebra fácil, fácil.
E
de certa maneira, muitos casais modernos acabaram deixando os
valores como amor, respeito ao próximo, conversa em família,
crescimento mútuo, diversão conjunta, liberdade
de opinião, aceitação e perdão, por
coisas, bens e serviços que podem conquistar. Passam alguns
anos atrás de casa própria, carro, móveis,
eletrodomésticos, escola para os filhos, empregada, etc.
Quando conseguem, daí são obrigados a encarar um
ao outro, porque não há mais grandes objetivos para
serem conquistados. E então percebem que um não
conhece ao outro. Descobrem que suas feridas (que todos têm)
não foram curadas. Pior: descobrem que a pessoa que é
mais importante na vida, o parceiro, em vez de ajudar a superar
as dores, provoca mais ainda, e destrói os sentimentos
mais profundos. Principalmente nós, mulheres, que somos
mais sensíveis e necessitamos expressar nossas emoções,
ficamos “na mão”, sem ter no parceiro alguém
em quem possamos confiar nossas emoções. Não
quero generalizar: é lógico que existem homens sensíveis
e companheiros; só estou dando uma amostra do que acontece
no meu trabalho. Mas o homem igualmente sofre, por dois motivos:
ele não foi criado para trabalhar as emoções
da mulher, nem as próprias. Numa sociedade como a brasileira,
latina, homem que é homem não demonstra emoções.
E por outro lado, porque o Brasil ainda é um país
em crescimento, e as propagandas hipnotizam a todos com os prazeres
do consumo, o homem (e também muitas mulheres) colocam
o seu foco mais naquilo que podem ter, do que no relacionamento.
Na Alemanha temos a possibilidade de ter muitas coisas materiais.
O que as pessoas querem conseguir aqui, lá já é
realidade e... mesmo assim as pessoas não se sentem felizes,
os casais não estão bem... Qual será o caminho?
Mergulhando
no íntimo do casal
Meu
trabalho é terapêutico. Sou facilitadora de Constelação
Familiar Sistêmica e lido muito com a questão de
relacionamento. Vamos esquecer um pouco esta questão da
busca material, que no fundo está disfarçando um
comportamento que tanto é do homem como da mulher. O que
percebo no consultório é mais uma busca para a cura
das dores internas. Cada pessoa carrega dentro de si a necessidade
de ser aceito, acolhido, quer pertencer a algum lugar. Pode parecer
estranho, mas é muito comum alguém, dentro da própria
família, não se achar pertencente a ela. E isto
já se percebe ainda na infância: quantos de vocês
não se sentiram sem o carinho da sua mãe, sem a
atenção do papai? Quantos de vocês não
acharam que o irmão recebia mais que você? E muitas
vezes, recebia mesmo.
A Constelação Sistêmica diz que a família
é um sistema que se auto-ajusta. Fomos ensinados que somos
um indivíduo, mas não somos. Em relação
à família, fazemos parte de um todo, que se chama
sistema familiar, e tudo o que fazemos é influenciado pelo
o que aconteceu e acontece dentro da família, principalmente
nossos pais, irmãos e avós, além da família
atual: companheiro ou companheira e filhos.
Nossas emoções e atitudes estão condicionadas
por heranças genéticas. Quantas pessoas você
conhece que sempre arrumam o mesmo tipo de companheiro, por exemplo,
alcoólatra? Isto é o sistema atuando. É lógico
que a pessoa não quer conscientemente um viciado, mas ele
sempre aparece... E assim, a tendência de arrumarmos parceiros
ou agressivos, ou apáticos, ou pouco carinhosos, ou focados
somente no trabalho, ou que traem sempre, etc., pode ser um “ajuste”
que trazemos conosco, originado em algum momento na própria
família. O outro lado também possui os ajustes dele,
e só podemos trabalhar cada um focado nas próprias
emoções e características.
A
“malinha” de problemas
Carregamos,
pela herança genética, “malinhas” de
problemas que não pertencem a nós. Queremos consertar
o casamento dos nossos pais, ou ser diferente do avô ou
avó, ou ser melhor dentro de uma família que achamos
problemática. Pegamos o problema do marido e achamos que
é nosso, e assim também fazemos com os nossos filhos.
A
Constelação Sistêmica coloca tudo isso a tona!
As características emocionais que temos, o que estamos
carregando, se queremos resolver problemas que não tem
nada a ver com a gente, se queremos assumir o papel do pai quando
somos filho, ou do marido quando somos esposa, ou do filho quando
somos pai... E aí começam os problemas de relacionamento.
Existem muitos pais que, ao se colocarem no papel de filho, têm
atitudes fracas, sem responsabilidade e sem autoridade. Muitas
mães, ao se colocarem no papel do pai, se endurecem, assumem
todo o lado financeiro, perdem a doçura e o sentimento
de acolher característico da mãe. Muitos filhos,
ao assumirem as dores e os problemas dos pais, perdem o respeito
aos próprios pais, aos chefes do trabalho, às pessoas
que comandam. Então, quando casam, também não
conseguem o respeito.
A família é um sistema único. Porém,
você representa diversos papéis dentro dela. Você
é filho dos seus pais, e sempre será, devendo se
comportar como filho deles. Você é marido ou esposa
do parceiro(a) e deverá ser assim: você não
é pai da esposa ou mãe do marido. Você é
pai ou mãe dos seus filhos e deve exigir o respeito deles,
sem um pingo de dó. A sua “malinha” de problemas
é só sua, mas será que você está
carregando os seus problemas somente?
Somente com cada um assumindo o seu próprio papel, as suas
próprias dores, e a partir disso, entendendo e aceitando
o papel do outro e as dores do outro, é possível
haver um relacionamento duradouro. Então, não havendo
mais nada a ser compensado, não havendo culpados pelo sofrimento,
o amor entre o casal se demonstra pleno e vigoroso, como já
existia antes, porém, camuflado pelo peso do sofrimento
e culpa mútua. No fundo, o sofrimento é uma ilusão
que acreditamos realidade. O sofrimento deixa de existir, quando
paramos de “alimentá-lo”.
Theresa
Spyra