Todo ser humano
nasce de um pai. Mesmo que não tenha sido criado por ele,
mesmo que ele tenha dado no pé ao primeiro sinal de gravidez,
houve um pai. Sem aquela pequena célula masculina, nada
feito! Nada de fecundação! Somente isso já
bastaria para termos gratidão eterna ao pai, que nos permitiu
a vida. Mas aí é que está o problema: após
o nascimento, o pequeno ser humano é crivado de conceitos
do que ele deve fazer, pensar, sentir...
Dizem que
devemos ter gratidão e respeito ao pai. Porém, gratidão
e respeito são apenas palavras vazias. O dicionário
tem gratidão e respeito. É só procurar. Então
inventaram que gratidão e respeito estão vinculadas
a um comportamento: não falar alto com o pai, pedir a bênção,
nunca falar um palavrão na sua frente, não reclamar
do que ele fez ou deixou de fazer. Engraçado: comportamento
é apenas uma atitude vazia. Qualquer animal pode treinar
um comportamento.
Gratidão
e respeito não são comportamentos. Um grande número
de pessoas, por terem aprendido dessa forma, tem comportamento
social, mostram as atitudes de gratidão e respeito, mas
dentro de si existe uma mágoa profunda contra o pai. Isso
não é uma crítica, é simplesmente
uma constatação de quem trabalha com inúmeros
problemas de relacionamento e que também já teve
suas rusgas com o pai, e com a mãe também.
Vivemos numa
sociedade de comportamentos vazios. Colocam-se centenas de regras
e crenças de como deve agir o filho, e esquece-se que o
sentimento é que manda. Jesus, enquanto pregava cercado
por um numeroso grupo de pessoas, ao ser informado que sua mãe
e irmãos queriam lhe falar, disse simplesmente: meus irmãos
são os que estão aqui comigo. Ninguém duvida
do amor dele pela sua mãe e irmãos, apesar do comportamento
de não querer recebê-los.
Conheci uma
jovem cheia de energia e vida. Falava alto, gostava de festas
e em determinado momento fumou umas coisas diferentes... Mesmo
assim, o coração dela estava preenchido pelo amor
à mãe, que por outro lado achou o comportamento
dela como algo ofensivo a ela mesma. Por ter a auto-estima muito
baixa, a mãe achava que “os outros” iriam julgá-la
uma mãe relapsa, e não admitia isso. Simplesmente
jogava palavras duras e irreais para a filha, como: "você
não me ama e não me respeita!" A mãe,
no fundo, sabia que a filha a amava profundamente, mas tinha medo
do julgamento da sociedade. É isso que acontece numa sociedade
baseada em comportamento e não em sentimento.
O pai também
é cobrado pelo papel de pai. Deve ter o comportamento de
pai. Deve prover o lar de todas as necessidades materiais. Deve
dar segurança à família. Ser a pessoa que
ensina e impõe regras. Ser forte, seguro, determinado.
Um ponto de apoio à mulher e aos filhos. Esse tipo de comportamento,
logicamente, deveria merecer o respeito que a sociedade diz que
os filhos devem ter. Mas qual pai é assim? Quantos pais
são fracos, submissos e ausentes? Quantos pais não
têm força para sustentar o lar, nem coragem de proteger
a família?
Da mesma forma
que os filhos tentam quase sempre ter o comportamento que se espera
deles, mas não conseguem “inventar” o sentimento,
os pais também tentam ter o comportamento que esperam deles,
mas não conseguem “inventar” o sentimento de
pai. E muitos caem no desânimo, nos vícios, na traição,
famílias se desestruturam, filhos são abandonados,
simplesmente porque se vive uma sociedade de comportamento e não
de sentimento.
O que se espera
dos pais não existe, e o que se espera dos filhos também
não existe. Todos nós somos seres humanos e somos
a manifestação suprema da vida exatamente como somos,
apesar dos nossos comportamentos e emoções. Trazemos
em nossos ombros uma carga genética que determina não
somente nossas características físicas, mas também
muita coisa emocional. Herdamos da família tendências
que empurram nossa personalidade a adquirir medo e insegurança
que nem sabemos de onde vem. É isso que a constelação
familiar sistêmica demonstra. O medo que sentimos, nosso
pai também sente, da forma dele. A dor que sentimos, nosso
pai também sente. Cada indivíduo na face da Terra
carrega sua mala de dores e alegrias, e é ela que vai determinar
as emoções. Não dá para forçar
um comportamento externo sincero, se emoção está
em conflito.
Nem por isso,
quer dizer que não existe o amor ao pai. E também
não quer dizer que o pai não ama ao filho. O amor
é a única coisa que existe. Mesmo quando há
um comportamento julgado como incorreto pela sociedade, o amor
entre pai e filho está lá. Mesmo quando a dor é
profunda e a mágoa rasga as vísceras, o amor entre
pai e filho está lá. Não há nenhum
pai que não carregue o peso de não ter sido um melhor
pai, mais presente, mais amoroso, mais compreensivo, mais capaz.
Mas por menos que o pai tenha dado ao filho, ele lhe deu a vida
e isto é o suficiente.
Durante o
trabalho de constelação sistêmica, percebo
que a não aceitação a este simples fato por
parte do filho, acarreta uma longa trajetória de sofrimento,
relacionamentos infelizes, problemas profissionais e financeiros.
E tudo isso porque alguém ensinou que um pai deve ter um
comportamento que não teve.
Para as pessoas
que cansaram de sofrer pode ser o momento de parar de ver o comportamento
do pai e buscar lá no íntimo o sentimento puro e
infinito que transcende a qualquer coisa que tenha acontecido
no passado. Não existe pai com o comportamento perfeito,
nem filho com o comportamento perfeito. O homem, por mais que
se veja como um ser individual, é parte de um sistema familiar,
que é a verdadeira alma que influencia o nosso comportamento
diário e nossas emoções. A alma familiar
abraça tanto o pai quanto o filho e nos joga de um lado
para outro nos caminhos da vida, como as ondas empurram e sacodem
um barco.
Queremos
a felicidade, mas um comportamento social não tem a força
de mover um milímetro desta alma familiar, que também
chamamos sistema, rumo à redenção, à
liberdade. Pode-se viver a vida inteira respeitando as regras
sociais, mas sem mergulhar profundamente nas regras do sistema
familiar, a dor se perpetua. Isso quer dizer olhar sem culpa,
sem medo e sem julgamento para a família. E a regra principal
na relação pai e filho é aceitar o pai exatamente
como ele foi. Virtudes e defeitos. Qualidades e vícios.
E deixar que ele carregue sua própria mala. O filho é
o pequeno, e sempre será. O pai é o grande e sempre
será. Um filho não manda nunca no pai, não
importa a situação. Um pai pode mandar no filho
até a pós-adolescência, quando o filho deverá
estar pronto para voar sozinho. Após este momento o pai
não pode carregar os problemas do filho e nem o filho carrega
os problemas do pai. Na verdade, não existem problemas,
pois o que chamamos "problema" são comportamentos
que a sociedade diz que são errados. Os comportamentos
sociais mudam o tempo todo. A única coisa que sempre existiu
e nunca morrerá será o amor, que se mostrou naquele
primeiro instante sagrado, na união da célula masculina
com a célula feminina, possibilitando mais uma vida surgir
na Terra: a sua vida!
Theresa
Spyra