Aceitar
plenamente os pais – tomar a vida
Direi
primeiro alguma coisa sobre as ordens do amor entre pais e filhos
e, do ponto de vista da criança, isto é, do filho
para com seus pais. Aqui menciono algumas verdades banais. Elas
são tão óbvias que eu quase me envergonho
de citá-las. Não obstante, são freqüentemente
esquecidas.
O primeiro ponto é que os pais, ao darem a vida, dão
à criança, nesse mais profundo ato humano, tudo
o que possuem. A isso eles nada podem acrescentar, disso nada
podem tirar. Na consumação do amor, o pai e a mãe
entregam a totalidade do que possuem. Pertence portanto à
ordem do amor que o filho tome a vida tal como a recebe de seus
pais. Dela, o filho nada pode excluir, nem desejar que não
exista. A ela, também, nada pode acrescentar. O filho é
os seus pais. Portanto, pertence à ordem do amor para um
filho, em primeiro lugar, que ele diga sim a seus pais como eles
são -- sem qualquer outro desejo e sem nenhum medo. Só
assim cada um recebe a vida: através dos seus pais, da
forma como eles são.
Esse ato de tomar a vida é uma realização
muito profunda. Ele consiste em assumir minha vida e meu destino,
tal como me foi dado através de meus pais. Com os limites
que me são impostos. Com as possibilidades que me são
concedidas. Com o emaranhamento nos destinos e na culpa dessa
família, no que houver nela de leve e de pesado, seja o
que for.
Essa aceitação da vida é um ato religioso.
É um ato de despojamento, uma renúncia a qualquer
exigência que ultrapasse o que me foi transmitido através
de meus pais. Essa aceitação vai muito além
dos pais. Por esta razão, não posso, nesse ato,
considerar apenas os meus pais. Preciso olhar para além
deles, para o espaço distante de onde se origina a vida
e me curvar diante de seu mistério. No ato de tomar os
meus pais, digo sim a esse mistério e me ajusto a ele.
O efeito desse ato pode ser comprovado na própria alma.
Imaginem-se curvando-se profundamente diante de seus pais e dizendo-lhes:"Eu
tomo esta vida pelo preço que custou a vocês e que
custa a mim. Eu tomo esta vida com tudo o que lhe pertence, com
seus limites e oportunidades". Nesse exato momento, o coração
se expande. Quem consegue realizar esse ato, fica bem consigo,
sente-se inteiro.
Como contraprova, pode-se igualmente imaginar o efeito da atitude
oposta, quando uma pessoa diz: "Eu gostaria de ter outros
pais. Não os suporto como eles são." Que atrevimento!
Quem fala assim, sente-se vazio e pobre, não pode estar
em paz consigo mesmo.
Algumas pessoas acreditam que, se aceitarem plenamente seus pais,
algo de mau poderá infiltrar-se nelas. Assim, não
se expõem à totalidade da vida. Com isto, contudo,
perdem também o que é bom. Quem assume seus pais,
como eles são, assume a plenitude da vida, como ela é.
Bert Hellinger