homens e mulheres
Quero
também dizer mais alguma coisa sobre a ordem do amor na
relação do casal. Este tema nos fala mais de perto.
Muitos se envergonham disso, como se fosse algo que a gente deveria
ocultar. Aquilo que diferencia os homens das mulheres, que realmente
os diferencia, é escondido. Ou, pode-se dizer também,
é protegido. Pois é o lugar onde cada um é
mais vulnerável. É o lugar próprio da vergonha.
Vergonha significa, neste contexto, que eu guardo alguma coisa,
para que nada de mau aconteça. E é o lugar onde
nos sentimos mais entregues.
Alguns falam depreciativamente do instinto sexual e esquecem que
ele é a força real e mais profunda, que tudo mantém
unido e dirige, que toma cada pessoa a seu serviço, sem
que ela possa se defender. Pela pura razão, ninguém
se casaria ou teria filhos. Só esse instinto consegue isso.
É através dele que estamos em sintonia mais profunda
com a alma do mundo. Esse instinto é o que existe de mais
espiritual. Todo entendimento e toda consideração
racional empalidecem diante da força que atua por detrás
desse instinto.
A ordem do amor entre homem e mulher exige portanto, em primeiro
lugar, que o homem admita que lhe falta a mulher, e que ele, por
si só, jamais poderá alcançar o que uma mulher
tem. E exige igualmente que a mulher admita que lhe falta o homem,
e que ela, por si só, jamais poderá alcançar
o que o homem tem. Então ambos se experimentam como incompletos
e admitem isto.
Quando o homem admite que precisa da mulher e que só através
dela se torna um homem, e quando a mulher admite que precisa do
homem e só através dele se torna uma mulher, então
essa carência os liga um ao outro, justamente pelo fato
de a admitirem. Então o homem recebe o feminino como presente
da mulher, e a mulher recebe o masculino como presente do homem.
Imaginem agora um homem que desenvolve em si o feminino e uma
mulher que desenvolve em si o masculino, como muitos consideram
ideal. Se esse homem quiser se ligar a essa mulher, qual será
a profundidade dessa relação? No fundo, eles não
precisam um do outro. Inversamente, quando o homem renuncia ao
feminino e a mulher ao masculino, então eles precisam um
do outro e isto os mantém juntos.
O
vínculo
Quando o homem e a mulher se aceitam mutuamente como tais, a consumação
de seu amor cria um vínculo. Esse vinculo é indissolúvel.
Isto nada tem a ver com a doutrina moral da Igreja sobre a indissolubilidade
do matrimônio. A realização do amor cria uma
ligação, independentemente do casamento e de qualquer
rito externo.
A existência de uma tal ligação é percebida
pelos seus efeitos. Por exemplo, o homem que se separa levianamente
de uma parceira a quem estava vinculado dessa forma pela consumação
do amor, via de regra não conseguirá conservar uma
segunda parceira num outro relacionamento. Pois esta percebe o
seu vínculo com a parceira anterior, e não ousa
tomá-lo plenamente. Quando um homem abandona uma mulher
e se casa de novo, talvez sua segunda mulher se considere melhor
que a primeira e diga: "Agora eu o tenho para mim".
Ela entretanto o perderá. Nesse próprio triunfo
o perde, pois reconhece o vínculo desse homem com a sua
primeira mulher.
Então ela não o assumirá completamente. Nas
constelações familiares, pode-se perceber que uma
segunda mulher se distancia um pouco do homem. Ela não
ousa colocar-se perto dele, pelo fato de não ser sua primeira
ligação, mas a segunda.
A profundidade de um tal vínculo pode ser avaliada pelo
seu efeito. A separação do primeiro amor é
a mais difícil de se conseguir. É a mais dolorosa.
Quando uma segunda ligação se desfaz, a dor é
menor. Numa terceira, é ainda menor.
Essa ligação não é porém sinônimo
de amor. O amor pode ser pequeno e o vínculo profundo.
Inversamente, o amor pode ser profundo e a ligação
pequena. O vínculo se origina do ato sexual. Por isto,
ele também nasce de um incesto ou de um estupro. Para que
mais tarde uma nova ligação seja possível,
é preciso que a primeira seja corretamente resolvida. Ela
é resolvida quando é reconhecida e quando é
honrado o respectivo parceiro. Quem amaldiçoa o primeiro
vínculo impede uma ligação ulterior.
A
ordem de precedência
O fruto do amor entre o homem e a mulher são os filhos.
Também aqui é importante observar uma ordem do amor,
uma ordem de precedência no amor. Ela se orienta pelo começo.
Isto significa que o que vem antes tem, via de regra, precedência
sobre o que vem depois. Numa família, existe primeiro o
casal homem-mulher. Seu amor funda a família. Por isso,
seu amor como homem e mulher tem precedência sobre tudo
o que vem depois, portanto, sobre seu amor de pais por seus filhos.
Muitas vezes acontece nas famílias que os filhos atraem
sobre si toda a atenção. Então os pais não
são antes de tudo um casal, mas pais. Com isto os filhos
não se sentem bem.
Quando a relação do casal tem prioridade, o pai
diz a seu filho: "Em você, eu respeito e amo também
a sua mãe". E a mãe diz ao filho: "Em
você, eu respeito e amo também o seu pai". E
a mulher diz ao homem: "Em nossos filhos, eu respeito e amo
a você". E o homem diz à mulher: "Em nossos
filhos, eu respeito e amo a você". Então o amor
dos pais é a continuação do amor do casal.
Este tem a prioridade. Os filhos então se sentem muito
bem.
Várias famílias são segundas e terceiras
famílias, quando o homem e a mulher já eram casados
anteriormente e trouxeram filhos do matrimônio anterior.
Como é então a ordem de precedência?
Eles são primeiramente pai e mãe de seus próprios
filhos, e só depois disso constituem um casal. Por conseguinte,
seu amor como casal não pode continuar nos filhos, pois
já foram pais anteriormente. Então, o novo parceiro
deve reconhecer que o outro é, em primeiro lugar, pai ou
mãe dos próprios filhos, e que seu maior amor e
sua maior força fluem para eles e, neles, naturalmente,
também para o parceiro anterior. Só então
seu amor e sua força fluem para o novo parceiro. Quando
ambos os parceiros reconhecem isto, seu amor pode ser bem sucedido.
Quando, porém, um parceiro diz ao outro: "Eu tenho
prioridade em seu amor, e só então vêm seus
filhos", a relação fica em perigo. Essa situação
não se mantém por longo tempo.
Se eles mais tarde têm filhos em comum, então são,
em primeiro lugar, pai e mãe dos filhos do primeiro casamento;
em segundo lugar, são um casal e, em terceiro lugar, são
pais de seus filhos comuns. Esta seria a ordem, neste caso. Quando
se sabe disto, pode-se resolver ou evitar conflitos em muitas
famílias.
Falei até aqui sobre algumas ordens do amor na relação
entre o homem e a mulher. Para terminar, contarei a vocês
uma história sobre o amor. Ela é assim:
Dois
modos de ser feliz
Antigamente, quando os deuses ainda pareciam bem próximos
dos homens, viviam numa pequena cidade dois cantores que se chamavam
Orfeu.
Um deles era o grande. Tinha inventado a cítara, um tipo
primitivo de guitarra. Quando tocava o instrumento e cantava,
toda a natureza ficava enfeitiçada em torno dele. Animais
ferozes se deitavam mansamente a seus pés, árvores
altas se inclinavam para ele: nada podia resistir a seus cantos.
Pelo fato de ser tão grande, ele conquistou a mais bela
mulher. E aí começou a descida.
Enquanto ele ainda festejava o casamento, morreu a bela Eurídice,
e a taça cheia, que ele erguia nas mãos, se partiu.
Contudo, para o grande Orfeu, a morte ainda não foi o fim.
Com a ajuda de sua arte requintada, encontrou a entrada para o
mundo subterrâneo, desceu ao reino das sombras, atravessou
o rio do esquecimento, passou pelo cão dos infernos, chegou
vivo diante do trono do deus da morte e o comoveu com seu canto.
A morte liberou Eurídice -- porém sob uma condição,
e Orfeu estava tão feliz que não percebeu o que
se escondia por trás desse favor. Orfeu pôs-se a
caminho de volta, ouvindo atrás de si os passos da mulher
amada. Passaram ilesos pelo cão de guarda do inferno, atravessaram
o rio do esquecimento, começaram o caminho para a luz,
que já viam de longe. Então Orfeu ouviu um grito
- Eurídice tinha tropeçado - horrorizado, ele se
voltou, viu ainda a sombra dela caindo na noite e ficou sozinho.
Esmagado pela dor, ele cantou sua canção de despedida:
"Ai de mim, eu a perdi, toda a minha felicidade se foi!"
Ele próprio voltou à luz. Entretanto, no reino dos
mortos, passara a estranhar a vida. Quando mulheres ébrias
quiseram levá-lo à festa do novo vinho, ele se recusou,
e elas o despedaçaram vivo.
Tão grande foi sua desgraça, tão inútil
foi sua arte. Entretanto, todo o mundo o conhece.
O outro Orfeu era o pequeno. Era apenas um cantor de rua, aparecia
em pequenas festas, tocava para gente humilde, alegrava um pouco
e curtia isso. Como não conseguia viver de sua arte, aprendeu
um ofício comum, casou-se com uma mulher comum, teve filhos
comuns, pecou eventualmente, foi feliz de modo comum, morreu velho
e satisfeito da vida.
Entretanto, ninguém o conhece - exceto eu!
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Original: Wie Liebe gelingt
Palestra proferida por Bert Hellinger, em S.Paulo, Agosto de 1999
em original manuscrito.
Tradução: Anand Udbuddha (Newton Queiroz),
Rio de Janeiro
Revisão: Mimansa Erika Farny, Caldas Novas