o grupo familiar
Pertencemos
também a um grupo familiar, a uma estirpe, um sistema maior.
O grupo familiar se comporta como se fosse dirigido por uma instância
comum e superior. Ele é comparável a um bando de
pássaros em formação. De repente, todos mudam
a direção do vôo, como se tivessem sido movidos
por uma força superior comum.
No grupo familiar, essa instância superior atua quase como
um comando (Gewissen) interior partilhado por todos, e que atua
de modo amplamente inconsciente. Reconhecemos as ordens a que
obedece pelos bons efeitos de sua observância e pelos maus
efeitos de sua violação.
Quero citar, para começar, o círculo de pessoas
que são abarcadas e dirigidas por esse comando interior
(Gewissen), cuja amplitude podemos reconhecer por seus efeitos.
Estão nele incluídos:
O direito de pertencer
No
interior de cada grupo familiar, vale a ordem básica, a
lei fundamental: todas as pessoas do grupo familiar possuem o
mesmo direito de pertencer. Em muitas famílias e grupo
familiares, determinados membros são excluídos.
Alguns dizem, por exemplo: "Esse tio não vale nada,
ele não pertence a nós", ou então: "Dessa
criança ilegítima nada queremos saber". Com
isso, recusam a essas pessoas o direito de pertencer.
Existem também os que dizem: "Sou católico,
você é evangélico. Como católico, tenho
mais direito de pertencer que você". Ou inversamente:
"Como protestante, tenho mais direito, porque minha fé
é mais verdadeira. Você é menos crente do
que eu, portanto tem menos direito de pertencer". Isto não
é hoje tão freqüente como antigamente, mas
ainda acontece.
Ocorre ainda, quando um filho morre prematuramente, que seus pais
dão seu nome ao filho seguinte. Com isto, estão
dizendo ao primeiro: "Você não pertence à
família. Temos um substituto para você". Assim
o filho morto não conserva nem mesmo o seu próprio
nome. Com freqüência, não é mais contado
nem mencionado. Assim lhe é negado e retirado o direito
de pertencer.
O excesso de moral de alguns, que se sentem melhores e superiores
a outros, na prática significa dizer-lhes: "Tenho
mais direito de pertencer que você". Ou, quando alguém
condena uma pessoa ou a considera má, praticamente está
lhe dizendo: "Você tem menos direito de pertencer do
que eu". "Bom" significa então: "Tenho
mais direitos", e "mau" significa: "Você
tem menos direitos".
Os
excluídos são representados
Essa lei fundamental, que assegura a todos o mesmo direito de
pertencer, não tolera nenhuma violação. Quando
isso acontece, existe no sistema uma necessidade inconsciente
de compensação, que faz com que os excluídos
ou desprezados sejam mais tarde representados por algum outro
membro da família, sem que essa pessoa tenha consciência
do fato.
Quando, por exemplo, um homem casado se relaciona com outra mulher
e diz à própria esposa: "Não quero mais
saber de você", inventando falsas razões e cometendo
injustiça contra ela, e depois se casa com a segunda mulher
e tem filhos com ela, sua primeira mulher será representada
por um desses filhos. Uma menina, por exemplo, combaterá
o pai com o mesmo ódio da parceira rejeitada, sem que tenha
a menor consciência dessa representação. Aqui
atua uma força secreta de compensação, para
que a injustiça feita à primeira pessoa seja vingada
por uma segunda.
Muitos acontecimentos infelizes na família como, por exemplo,
desvios de comportamento dos filhos, doenças, acidentes
e suicídios acontecem pelo fato de que um filho inconscientemente
representa um excluído e quer dar-lhe reconhecimento. Nisso
se revela ainda uma outra propriedade da instância superior.
Ela faz reinar justiça para com aqueles que vieram antes
e injustiça para os que vêm depois.
A
solução
A
solução de um tal emaranhamento torna-se possível
quando a ordem básica é restabelecida, isto é,
quando os excluídos voltam a ser acolhidos e respeitados.
Neste caso, por exemplo, a segunda mulher deveria dizer à
primeira: "Eu tenho este homem às suas custas. Eu
honro isto e reconheço que foi feita injustiça a
você. Por favor, queira bem a mim e a meus filhos".
Desta forma, a primeira mulher é respeitada. Nas constelações
familiares, pode-se perceber então como se relaxa o rosto
da primeira mulher, como ela se torna amigável pelo fato
de ser respeitada. Com isso, é reconhecido o seu direito
de pertencer.
A solução exige também que a menina, que
imita essa mulher, lhe diga interiormente: "Eu pertenço
apenas à minha mãe e ao meu pai. Aquilo que se passou
entre vocês adultos não tem nada a ver comigo".
Ela diz a seu pai: "Você é meu pai, e eu sou
sua filha. Por favor, olhe-me como sua filha". Então
o pai não precisa mais ver nela sua ex-mulher, não
precisa mais defrontar-se com o ódio ou a tristeza que
ela possa ter. Ou, se ele ainda a ama, não precisa ver
a criança como sua amante, mas apenas como sua filha. Então
a criança pode ser a filha, e o pai pode ser o pai.
A criança precisa também dizer ao pai: "Esta
aqui é a minha mãe. Com sua primeira mulher não
tenho nada a ver. Eu tomo esta como minha mãe. Esta é
para mim a certa". E então ela precisa dizer à
mãe: "Com a outra mulher eu nada tenho a ver".
De outra forma, essa criança se tornará uma rival
da mãe, e não poderá ser filha. Talvez a
mãe veja nela inconscientemente a outra mulher, e então
mãe e filha entram em conflito como se fossem duas amantes
rivais. Mas quando a criança diz: "Você é
minha mãe e eu sou sua filha, com a outra não tenho
nada a ver. Eu tomo você como minha mãe", então
a ordem é restabelecida.
Existem contudo emaranhamentos bem mais complicados. Quando, por
exemplo, numa família, um filho morre prematuramente, os
filhos sobreviventes carregam muitas vezes um sentimento de culpa
pelo fato de estarem vivos, enquanto seu irmão está
morto. Acreditam que, por estarem vivos, possuem uma vantagem
sobre o irmão falecido. Então eles querem compensar
isto, por exemplo, deixando-se ficar mal, adoecendo ou mesmo desejando
morrer, sem que saibam por quê.
Aqui pertence à ordem do amor que eles digam interiormente
ao irmão morto: "Você é meu irmão
(minha irmã). Eu respeito você como meu irmão
(minha irmã). Você tem um lugar em meu coração.
Eu me curvo diante do seu destino, da forma como lhe aconteceu,
e digo sim ao meu destino, da forma como me foi determinado".
Então a criança morta é respeitada, e a outra
pode permanecer viva sem sentimento de culpa.
A
imagem mágica do mundo e suas conseqüências
Por trás da necessidade de compensação, que
faz adoecer, atua uma fantasia mágica, a saber, que eu
posso salvar uma outra pessoa de seu pesado destino, desde que
eu tome também algo de pesado sobre mim. É o caso
da criança que diz à mãe gravemente doente:
"Antes eu adoeça do que você. Antes morra eu
do que você". Ou ainda, quando a mãe quer abandonar
a vida, um filho se suicida, para que a mãe possa ficar
viva.
Um exemplo disto é a magreza compulsiva. O anoréxico
vai se tornando cada vez menor, desaparece, por assim dizer, até
a morte. Em sua alma, essa criança diz a seu pai ou a sua
mãe: "Antes desapareça eu do que você".
Aqui atua um amor profundo. Mas quando a criança morre,
qual é o efeito desse amor? Ele é totalmente inútil.
Quando trabalho com uma pessoa com essa compulsão, faço
que olhe nos olhos de seu pai ou de sua mãe e diga: "Antes
desapareça eu do que você". Quando ela os encara
nos olhos a ponto de realmente os ver, ela não consegue
mais dizer essa frase, porque percebe que o pai ou a mãe
não aceitará isto dela. É que o amor mágico
desconhece o fato de que também a outra pessoa ama e que
ela recusaria isto, independentemente da inutilidade de tal amor.
Quando a mãe morre no nascimento de uma criança,
é muito difícil para essa criança tomar a
sua vida. Ela precisaria encarar a mãe nos olhos e dizer:
"Mamãe, mesmo por este alto custo eu tomo esta vida
e faço algo de bom com ela, em sua memória. Você
precisa saber que não foi em vão". Isto é
amor, num nível mais elevado. Ele exige o abandono da fantasia
mágica de poder interferir no destino de outra pessoa e
mudá-lo. Ele exige a passagem de um amor que faz adoecer
para um amor que cura.
A fantasia do amor mágico está associada a uma presunção,
a um sentimento de poder e superioridade. A criança realmente
acha que, através de sua doença e de sua morte,
pode salvar da morte outra pessoa. Renunciar a essa idéia
só é possível pela humildade.
Bert
Hellinger