artigos - coaching e consultoria  
 
   

Equilíbrio profissional passa pela desaceleração

por Alex Possato

Alcy era um profissional talentoso. Jornalista, bilíngüe, querido pelos amigos e colegas, uma verdadeira enciclopédia ambulante, naturalmente foi galgando uma posição de destaque dentro das principais empresas jornalísticas de São Paulo. Embora ele fosse aparentemente acanhado, tímido, na prática seu jeito servia muito bem para a profissão, já que ele não tinha um aspecto ameaçador, e exatamente por isso muitas portas eram abertas para aquele rapaz baixo, um pouco calado e educado.
Porém, existia algo dentro dele que o atormentava. Um impulso, uma emoção sempre era disparada após um determinado momento, fazendo com que ele deixasse de se sentir confortável no ambiente de trabalho. Algo deixava-o irrequieto, e daí para começar os atritos com a chefia e a busca de um novo emprego era muito rápido. Esta mudança constante durou toda a carreira profissional de Alcy e ele não se realizou na sua carreira, apesar de todo o talento e portas abertas - que aos poucos foram sendo fechadas. Na verdade, ele não estava buscando melhores ambientes de trabalho, ou melhores salários, ou melhores oportunidades. Ele agia baseado numa emoção profunda, que fazia com que necessitasse ser aceito dentro do trabalho, pelos chefes e colegas, mas algo sempre dizia que ele não era aceito. Este algo era uma emoção que vinha dele mesmo: ele mesmo não se aceitava.

A mente foi programada para se proteger
Devido à capacidade que temos de captar, guardar e processar informações no nosso HD mental, esquecemos muitas vezes que a origem da humanidade é lá atrás, cerca de 6 milhões de anos, quando vivíamos em cavernas, coletando alimentos e nos esquentando com peles. Biologicamente, não temos grandes diferenças entre o que éramos e o que somos. Uma destas características que herdamos dos nossos vovozinhos da caverna foi a capacidade de perceber perigos e se preparar para reagir, seja fugindo, seja atacando.
Através dos nossos sentidos, observamos uma situação e colocamo-nos em guarda. A questão é que, enquanto em tempos ancestrais tínhamos que enfrentar animais selvagens, abismos profundos, deslocamentos e viagens fatigantes, secas, inundações, ataques de grupos inimigos, enfim, toda a espécie de perigos, hoje é diferente. O ser humano enfrenta um chefe mal humorado, o parceiro ou parceira cobrando a presença e o carinho, os filhos querendo atenção, os pais sempre dizendo o que é certo e errado, a mídia gritando o que se deve comprar para ser feliz e realizado...
Curiosamente, o mesmo processo de defesa novamente se arma, desta vez devido às cobranças constantes de maior rendimento, ao estresse e às próprias emoções mal resolvidas. E agimos baseados neste instinto, entrando em atrito com a empresa, demitindo-se, fugindo das responsabilidades, buscando novas e novas oportunidades que nunca satisfazem. Até onde vai este caminho?

Equilíbrio na vida profissional e pessoal
Em coach ou terapia temos um certeza: uma determinada situação só muda quando o cliente deseja que mude. Pode parecer óbvio, mas não é: uma pessoa acostumada a agir sempre da mesma forma, está condicionada, tem uma dificuldade extrema de mudar a postura, até porque a atitude antiga, embora não seja confortável, é conhecida. E assumir outra postura é assumir o risco do desconhecido: causa medo. Porém, logicamente existem muitos que percebem que é importante se permitir novas posturas.
Um pressuposto em programação neurolingüística diz que "atitudes semelhantes levam a resultados semelhantes". A mudança de resultados implica em mudança de comportamento.
Uma das mudanças que percebemos urgentes nas pessoas que atendemos é a desaceleração. Parar para refletir, meditar, observar. Deixar de correr sem sentido para lugar nenhum. Sem perceber, a sociedade deixou-se apanhar por um furacão chamado competitividade, consumismo, sucesso, carreira, produtividade, rentabilidade, eficiência e esqueceu-se dos valores simples como relacionamento, tradições, celebrações, respeito e reverência aos pais e idosos, arte e criatividade, vida em família, alimentação equilibrada, natureza, trabalho com prazer...

Cada pessoa tem dentro de si os valores fundamentais para a própria realização. Uma pergunta bem simples ajuda a esclarecer quais são estes valores: pense, hipoteticamente, que você terá apenas seis meses de vida pela frente - o que iria realizar, então? Como gostaria de ser lembrado? Que tipo de "herança" gostaria de deixar para as pessoas que ama?
A partir destas respostas, perceba se o que tem feito está caminhando para esta direção, se é compatível ou está muito incongruente. E veja se dentro de si existe a necessidade de equilíbrio emocional, espiritual, físico, nos relacionamentos, nas atitudes, no trabalho...

A plena realização profissional passa por atitudes conscientes e equilibradas, desaceleradas, movidas por um sentimento de amor por si mesmo, e não pelos instintos de sobrevivência, condicionamento consumista ou fatores emocionais. A milenar sabedoria chinesa possui um termo muito especial: "wu-wei", que significa algo como "fazer pelo não-fazer". Isto significa estar absolutamente presente em cada gesto, em cada atitude, em cada atividade, a tal ponto que você não percebe que está fazendo algo - e a coisa acontece por si, sem força, sem cansaço, sem desgaste.
Você já experimentou realizar alguma atividade onde estava tão centrado que nem percebeu o resultado? E o resultado, na verdade, não importava nem um pouco, porque o prazer aconteceu em cada etapa do processo? Este é um dos caminhos para o equilíbrio no trabalho...

artigo públicado no site Brasil Profissões
10/10/2007

 
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