Patrão
ou empregado?
por Alex Possato
Lembro-me no tempo em que fui bancário – isto já
faz uns 20 anos, que uma idéia sempre passava na minha
cabeça: ah, se eu fosse patrão! Era um tal da gente
reclamar dos chefes, do dono do banco, dos empresários,
como se eles fossem responsáveis pelas nossas aflições.
E que aflição eu tinha? Bem, na realidade, a grana
era curta. Porém, olhando hoje, com a visão que
a maturidade dá, lembro-me que os grandes problemas da
minha vida, naquele tempo, era comigo e com minha família.
Eu não sabia o que queria da vida, e estava no banco somente
por estar. Minha família tava bem confusa, meus pais separados,
meu irmão brigando com todos. Eu queria arrumar uma namorada
legal, destas “pra casar”, e não arrumava.
Daí eu pergunto: o que é que o Farias – o
gerente do meu departamento, tinha a ver com tudo isso? E o dono
do banco, que não lembro o nome, que chegava sempre escoltado
por enormes seguranças de terno preto, pegava o elevador
exclusivo e sumia dentro daquele prédio da Av. Paulista
– o que é que ele poderia fazer para arrumar uma
namorada pra mim?
Gosto muito da analogia de Jesus, quando fala de separar o joio
do trigo, ou quando ele ainda diz: a César o que é
de César. Devemos separar as coisas em seus devidos lugares.
A mente humana tem a tendência de generalizar, distorcer
e omitir informações, criando “fantasias”
que acabamos acreditando como verdade.
Estudando programação neurolingüística
e o funcionamento dos pensamentos e emoções, descobrimos
que não existe uma realidade que possamos apreender com
o cérebro: conseguimos descobrir somente partes da realidade.
E ainda a mente vem, e distorce as informações...
até eu achar que o Farias era culpado das brigas da minha
família. Eu fui assim, e muitos são assim, embora
inconscientemente. Culpamos o sistema, o capitalismo, a globalização,
o efeito estufa, a falta de estudos, a infância humilde,
e por aí vai.
Quando começamos a trabalhar como empregados, muitas vezes
vestimos um uniforme chamado “explorado”, e nos colocamos
neste papel. Sentimo-nos explorados e achamos o patrão
um ganancioso explorador.
Mentalidade
de empregado
Podem
haver, e na verdade existem empresas mais injustas, patrões
mais duros, gerentes com duas (ou mais) caras... Assim é
o mundo. Este mesmo mundo possui empresas modelos, patrões
justos e gerentes capazes. A questão é: com que
tipo de mentalidade um empregado trabalha? Com a que eu tinha,
acima, achando culpas para problemas da minha vida que não
tinham nada a ver com o meu emprego? Ou assumindo meus problemas,
tratando-os da forma possível, e ao mesmo tempo planejando
o meu próprio sucesso profissional?
Uma coisa deve ficar clara: ninguém, absolutamente ninguém
leva um empregado para cima. É uma grande ilusão
achar que alguém sobe porque foi ajudado... Compreendo
e já vi pessoas sendo guindadas a cargos mais altos porque
o chefe indicou. Mas isso é absoluta capacidade: o que
eu, antigamente, chamava de puxa-saco, nos dias de hoje, chama-se
networking. Quem não souber se relacionar, com interesses
de subir na carreira profissional, será ultrapassado por
alguém que sabe se relacionar – e muitas vezes este
alguém possui conhecimentos até menores que outros.
Porém, a capacidade de se relacionar é o fator mais
importante para alguém se dar bem na profissão.
Reconheço que a habilidade do relacionamento é quase
uma arte. Mas é possível treinar. E a boa notícia
é que não é preciso ser bonito, elegante,
ter boa dicção para saber se comunicar. Todo mundo
pode ser um bom comunicador do jeito que é. A diferença
é uma só: qual o foco da comunicação?
Eu era um ótimo comunicador entre meus colegas: falava
com todos, xingava o patrão, comentava a rodada do campeonato
de futebol do final de semana, participava dos jogos e festas...
Até flertava com as gerentes mais velhas... Qual era o
meu foco? Explico: ser aceito pelos colegas e mostrar que o sistema
da empresa era nocivo para todos os funcionários. Isto
era uma mentalidade tacanha, que nunca iria me direcionar a melhores
cargos ou oportunidades em outras empresas, afinal, o meu foco
não era esse.
Mentalidade
de patrão
Eu
achava que ser patrão era ser o dono da empresa. Isso não
é verdade. Ser patrão é ser dono de si mesmo,
responsabilizar-se pela sua vida profissional, emocional e pessoal.
Parar – pelo menos um pouco, de culpar fatores externos
pelos problemas da vida, e simplesmente focar o próprio
desenvolvimento. Para isso, utilizamos o que falei acima: a capacidade
de comunicação. Porém, o foco deixa de ser
“querer a aceitação dos colegas” e passa
a ser “buscar o desenvolvimento pessoal”. Logicamente,
com habilidade, você consegue tanto ser um bom camarada,
um colega leal e honesto, mas também um bom profissional.
No momento em que assumimos o papel de comandante do nosso destino,
automaticamente as oportunidades começam a surgir. Automaticamente
começamos a nos comunicar melhor, visando melhorias na
vida.
Por isso, é fundamental perceber o que passa na própria
cabeça em relação a trabalho, emprego, dinheiro,
quais são as emoções envolvidas e qual é
o direcionamento que estamos dando à nossa carreira. A
equação é bem simples: sem foco no desenvolvimento
pessoal, o que conduzirá nossas atitudes, inconscientemente,
é o piloto automático.
Piloto automático? O que é isso?
Dizemos que somos um caldeirão de idéias e emoções
em estado latente. Temos em nós alegrias e tristezas, realizações
e frustrações, capacidade e incapacidade. Se direcionamos
nossa vida para o progresso, a mente escolhe as habilidades necessárias
para isso. Se não direcionamos para lugar nenhum, as emoções
e idéias que estiverem mais fortes dentro de si é
que comandarão as atitudes.
No meu caso, naquela época de bancário, as emoções
que estavam fortes em minha vida eram de distúrbios familiares,
sentimentos de insatisfação e incapacidade e reclamação
de tudo e todos. Imagine se eu progredi profissionalmente...
Por isso, seja você patrão ou empregado, deve adotar
a mente de patrão para comandar a sua vida. É engraçado:
conheci muitos empresários que também tinham a mente
de empregado (aquele que se acha dependente do mundo exterior).
Além de sofrerem muito como empresários, não
tinham sucesso financeiro.
Porém, essa mentalidade pode mudar de uma hora para outra.
Basta focar e aceitar trabalhar suas próprias crenças
e emoções interiores, visando construir um futuro
melhor para si mesmo. O melhor seria até focar algo maior
que a simples realização profissional: o sentido
da sua vida, ou seja, aquela tarefa, atividade que lhe dá
o máximo de prazer, e mesmo antes de dar algum retorno
financeiro, você está feliz e motivado por ela. Mas
isso é um outro papo para outro momento!
artigo
públicado no site
Brasil Profissões
08/11/2007