Quem
é o nosso patrão?
por Alex Possato
Eu sempre achava engraçado, quando criança, ouvir
o tal do Lombardi responder ao Silvio Santos: "fala, patrão!"
Acho que eu nem sabia o que significava patrão, mas tinha
a noção de que representava alguém que mandava...
Hoje, em muitos lugares que vou, sempre tem um atendente me chamando
de patrão.
Será que eu sou patrão de alguém? Será
que tenho o poder de mandar? E será que esta pessoa que
me chama de patrão está realmente querendo me servir?
Ou só está querendo ser aceita, de certa forma,
"comprando-me" pela simpatia.
Vamos
entender um pouco sobre o funcionamento do cérebro. Quem
é que realmente manda em nós? Como que a nossa mente
processa este tipo de informação: alguém
mandando fazer alguma coisa...
Vamos lá. Nós recebemos as informações
através dos nossos órgãos dos cinco sentidos,
certo? Audição, visão, olfato, tato (e sensações
corpóreas) e paladar.
-
Vá pegar aquela pasta lá em cima da mesa e leva
para o Fulano da Silva! AGORA!
- Já ouvi, patrão!
Bem,
vamos ver o que acontece em nossa mente quando uma ordem dessas
é mandada... Em primeiro lugar, ela entra em minha mente
pela audição. Depois, a vibração do
ar, que chamamos som, provoca impulsos elétricos que são
transmitidos para o cérebro. Mas não foi somente
o som que foi transmitido. O cérebro vai analisar tudo
o que está envolvido com esta ordem: o tom de voz (alto),
os gestos que eu presenciei do "patrão", sua
expressão fisionômica, as pessoas que estão
em volta, a sensação que a ordem provocou em mim
(calor, transpiração, palpitação,
por exemplo) e ainda o significado da mensagem. Levar, pasta,
sr. Fulano, AGORA...
O
homem-arquivo
Costumamos dizer que dentro da nossa mente existe um homem-arquivo.
Isto quer dizer, figuradamente, um pequeno homem, percorrendo
dezenas, centenas de corredores com arquivos enormes, e sempre
que a mente é estimulada, ele vai até determinadas
gavetas, retira determinadas pastas e dá um parecer. E
aí está a questão... todo parecer que o nosso
"homem-arquivo" dá é um parecer limitado,
pessoal, que não corresponde à verdade global, mas,
pelo contrário, é somente o que temos registrado
dentro da nossa mente...
Assim, quando o patrão gritou... o meu "homem-arquivo"
vai na gaveta onde está a pasta "patrão".
O que tenho registrado dentro de mim sobre patrão? Quais
são as emoções e sentimentos que tenho sobre
o termo "patrão"? Eu, quando mais jovem, achava
que todos os patrões eram exploradores e mal-intencionados.
Resultado: enquanto não atualizei o meu arquivo sobre o
tema "patrão", nunca fui muito bem sucedido com
meus chefes. O mais incrível foi que, quando tive a oportunidade
de me tornar empresário, continuei com a mesma pasta do
arquivo, e sentia-me terrivelmente culpado, angustiado quando
lidava com os meus funcionários. Achava que eu sempre estava
explorando-os, que eles sempre mereciam mais... Era uma agonia
quando tinha que demitir alguém, mesmo por justa causa.
Passava até mal! Pois é, apesar de eu ter virado
o patrão, não havia atualizado a minha pasta, e
sempre que me identificava como o chefe, passava terrivelmente
mal.
Voltando
ao exemplo que dei acima, além do significado de patrão,
o cérebro busca também outras coisas: quais emoções
e sentimentos estão atrelados a alguém que grita
com você? O que significa fazer uma coisa AGORA? Como trabalho
com a sensação de urgência? Como me comporto
quando alguém grita comigo na frente de outros?
O
único patrão que existe somos nós mesmos!
Por mais que a gente possa não gostar de alguém
que grita, ou ter conceitos diferentes sobre chefia, patrão,
empregado, urgência, etc., cabe a nós percebermos
se estes conceitos interiores estão fazendo bem para nós
ou não. Uma situação exterior, um fato ou
uma pessoa são apenas catalisadores de crenças e
emoções interiores que possuímos. Se não
gostamos de determinada situação ou de alguém,
não é exatamente porque a situação
é ruim ou a pessoa não presta: é porque nossas
crenças e emoções interiores sobre a situação
ou a pessoa provocam mal-estar... em nós mesmos!
O mais engraçado é que o mal-estar é químico!
Nosso cérebro identifica coisas que não gostamos
(porque nós falamos para ele que não gostamos) e
dispara no organismo neurotransmissores que causam mal-estar...
Para que? Você pode perguntar. Por que o cérebro
despeja dentro do próprio organismo elementos químicos
que trazem desconforto?
A razão é simples, muito simples. A função
básica da mente é proteger o organismo. É
a lei da sobrevivência. Isto é instintivo. Então,
se falamos para a nossa mente que determinada pessoa não
presta ou tal situação é ruim, ao fazer com
que passemos mal, automaticamente nós rejeitamos a pessoa
ou a situação... nos afastamos delas. Assim, segundo
nossa mente, "estaremos protegidos e iremos sobreviver".
A mente também fica condicionada a, sempre que ver tal
pessoa ou enfrentar a situação que ela acredita
ser ruim, disparará o "mal-estar" no organismo!
Costumo dizer que a mente é burra. Não que ela seja
exatamente burra... vamos dizer que ela é pragmática.
Age sem pensar. O consultor de empresas e conferencista Stephen
Covey universalizou o termo "mente reativa". Isso significa
que a mente reage com o primeiro instinto que surge. Um dos instintos
mais primitivos é o da sobrevivência. Então,
já dá pra ver que a reação instintiva
da mente é no sentido da defesa, nunca da conciliação,
da sabedoria...
Em
suas palestras, Covey fala que o profissional eficaz é
aquele que domina a própria mente reativa, utilizando a
mente pró-ativa. O que é isso? Mente pró-ativa?
De uma maneira bem simples de falar, é a mente que dá
um tempo. A mente que para diante de uma situação,
observa, não julga nada, e deixa que a reação
venha naturalmente. É a mente sábia, que observa
quais "pastas" o seu "homem-arquivo" pegou,
olha se elas são confortáveis, se trazem bem-estar
ou não, e então optam em aceitar estas pastas ou
não. Todo esse processo se passe em milésimos de
segundo! Quando você percebe que seus arquivos não
são legais para a situação, você pode
determinar que tipo de arquivo quer ter no momento. E você
tem todos! Arquivos de conciliação, de paciência,
de perdão, de entendimento, de sabedoria, de ponderação...
Basta determinar à sua própria mente o que você
espera dela! A mente pode ser um pouco burra mas... você
não é! Você é o seu próprio
patrão!
artigo
públicado no site
Brasil
Profissões
26/10/2007