Parte 1
O
despertador
É
curioso como encontrei este estranho personagem no centro velho
de São Paulo. Eu estava procurando resolver um problema
seríssimo que atormentava toda a família, a ponto
de causar atritos entre eu, minha esposa e meus dois filhos: o
sono profundo do meu filho de 12 anos de idade e a sua incapacidade
de acordar no horário correto. Fizemos reuniões
infindáveis para descobrir as verdadeiras causas deste
descontrole biológico. Cogitamos se era encosto, obsessão,
implante extra-terrestre, influência da órbita de
Júpiter, trabalho de alguém... e após quase
entrarmos em confronto corporal, chegamos à conclusão
de que a causa era uma só: o despertador quebrado do meu
filho!
Embora eu não estivesse completamente certo
sobre isso, parti rumo ao centro de São Paulo em busca
da solução: ir até a rua 25 de Março
e suas imediações, onde se encontram centenas de
produtos chineses de preços incríveis e origem duvidosa.
Lá, com certeza, eu acharia um despertador ideal!
Vasculhando uma daquelas galerias enormes, incrustradas
em edifícios improvisados, passei por inúmeras lojinhas
onde o idioma oficial era o mandarim. Perguntei-me se seria necessário
um tradutor para encontrar o despertador. Subi escadas, desci
escadas, fugindo sempre dos elevadores apertados, daqueles modelos
bem antigos, que se abrem com uma grade de puxar, apinhados de
olhos puxados e sacolas de compras.
Pairava no ar um cheiro de sanduíche de carne louca, produtos
eletrônicos e gente. O calor era quase insuportável
e por isso funcionava um interessante sistema de refrigeração
nos corredores, que eu nunca havia visto antes: canos suspensos
entre fios elétricos expostos, espirravam vapores de água
sobre o público. Muito louco! Senti-me no parque do Ibirapuera!
Lá pelas tantas, um pouco cansado de andar,
reparei numa minúscula cortina vermelha, ao lado de uma
vitrine também de tons avermelhados. Ela destoava de tudo
o mais! Enquanto a galeria era entulhada de produtos eletrônicos,
luminárias baratas, tênis falsificados, cd’s
e outras tralhas, naquela vitrine havia elementos bem diferentes:
uma estátua do Preto Velho um pouco maltratada. Uma imagem
de Iemanjá. Do alto, pendiam algumas luminárias
de tecido, estilo indiano, com cores fortes e vibrantes. Pirâmide
de cristal, terços, guias de umbanda, jogos de tarô,
uma infinidade de artigos místicos.
A minha curiosidade diante daquele encontro inusitado
era tanta que entrei no recinto. Um forte cheiro de incenso cobria
qualquer odor que viesse de fora. Identifiquei também o
característico aroma das folhas de arruda. “Hum,
é proteção!”, pensei. Olhei para uma
imagem de uma mandala, ao lado de um baguá. Quase caí
quando percebi na penumbra uma silhueta de alguém sentado!
Era um homem com uma barba enorme, um turbante alaranjado, que
não sei definir se árabe ou indiano. No pescoço,
pendiam guias e colares de sementes escuras. Sua tez era parda,
próxima ao café com leite.
- Você é o proprietário? perguntei.
Nenhum som veio de sua boca.
- Fala minha língua? Do you speak english? Sprech deutch?
Habla español? Nihongo wakarimaská?
Nada. Nem um piscar. Comecei a pensar que ele
era doido e seria melhor sair correndo de lá. Nisto, com
um gesto que durou quase meia hora, ele levantou a mão
esquerda, e apontando com sua enorme unha de cinco centímetros
de comprimento do dedo indicador, mostrou-me um cartaz, onde se
lia: “consulta: trinta reais”. Fiquei me perguntando
se aquele vigarista ia me extorquir trinta reais para responder
se era o proprietário, mas uma estranha força me
fez tirar o dinheiro da carteira e sentar-se na frente do místico.
O dinheiro desapareceu bem mais rápido que o primeiro gesto
que ele havia feito.
- E aí, cara?
Esta não era a primeira frase que eu gostaria de ouvir
da boca de um guru, um místico. Mas não dei muito
tempo e disparei:
- Você cobra de todo mundo que lhe pergunta alguma coisa?
falei, com rancor.
- Não existe nada de graça na vida, cara! Sujeitinhos
como você se acham os caras mais amorosos e espiritualistas
do mundo, mas não conseguem dar um centavo para algo ou
alguém que não conhecem! E se dão, ficam
esperando o retorno imediato! Eu dei, agora Deus me dá
de volta! Você não está dando dinheiro, você
está dando desconfiança... o que acha que vai voltar?
Fiquei calado. Minha vontade era falar um palavrão
para aquele homem esquisito, que veio já me colocando na
parede. Quem era ele para me chamar de “sujeitinho”?
Eu odeio quando sou cobrado injustamente, na verdade odeio quando
me cobram qualquer coisa!
- Você se sente devedor! Quase gritou o
cara do turbante. Se não se sentisse devedor perceberia
que eu não quis ofender você! Se liga! Tá
na hora de melhorar esta relação sua com o universo!
Dê e aceite! Da mesma forma que você não sabe
dar, também não consegue aceitar numa boa, não
é?
Será que ele lê pensamento? Fiquei
intrigado como era que ele podia falar quase o que eu estava pensando.
Estava um pouco chocado com a cascata de palavras proferidas pelo
barbudo. Fitei os profundos olhos negros do guru, respirei fundo,
e perguntei:
- Quem é você? O que eu posso aprender com você?
- Ih, cara... se você não sabe o que quer, qualquer
porcaria te satisfaz! Leva uma pirâmide, uma estatueta,
qualquer coisa daqui... Isso vai te satisfazer. Por pouco tempo.
É igual nesta galeria. Fico olhando um monte de fulano
que vem só espiar, sai com um monte de sacolas de contrabando,
mas nos olhos deles eu vejo o mesmo vazio de quando entraram.
Sabe... Já ouviu aquele papo que Jesus salva? Jesus não
salva nada! Nem ninguém!
- Como? Está dizendo que é tudo mentira o que dizem
de Jesus? indaguei, indignado.
- Se liga! Onde está a fé que move montanhas? Em
Jesus ou em você? Quem pode fazer mais e melhor que ele?
É você, cara! Jesus veio ao mundo para dizer que
ele era um cara como você! Sem tirar nem por! Mas sabe por
que as pessoas que buscam Jesus nunca estão realizadas?
- Não...
- É simples. Simplesinho. Porque eles buscam... Eles procuram
Jesus igual aos caras que compram radinho de pilha e muamba aqui
na galeria.
- ?!?
- Você veio buscar um despertador, não é?
- Como você sabe?
- Não interessa! Somente me responda: como despertar alguém
que está acordado?
- Não dá...
- É isso. Não dá. Não existe ninguém
dormindo. Não existe como despertar. Não existe
o que procurar. A vida é isso aí que está
aí fora. O paraíso é isso aí. Não
vê quem não quer. E é uma maravilha, bicho!
Mesmo quem não vê, está acordado. Todo mundo
acordado! Inventaram que existe mais coisa que o paraíso
que é a vida, mais curtição em outros mundos,
planos, céu, sei lá... O que mais pode haver que
a maravilha deste universo?
- Como eu posso ver esta maravilha? Perguntei, curioso, percebendo
que o que ele falara tinha uma lógica forte.
- Cara, fique com o que eu te disse agora. Volta depois. Se quiser.
Você quer entender com a cabeça. Dá um tempo...
A cabeça não é pra essas coisas, não...
Relax.
Levantei-me um pouco tonto e fui saindo lentamente. Pelo canto
dos olhos pude ver o cara acendendo um longo cigarro. Fiquei desconfiado
que era a canabis. Mas deixa pra lá... Não sei onde
eu estava com a cabeça, mas eu ia ter que voltar neste
lugar e reencontrar este místico maluco...