Parte 2
Meu
filho não me obedece!
Muitos meses
se passaram. Na verdade, quase já não me lembrava
daquele encontro insólito no centro de São Paulo.
Acho que geralmente é assim: quando alguma coisa toca dentro
de nós, incomoda, provoca e a fuga daquilo que incomoda
é uma reação comum.
Sempre ouvi
dizer que os mestres incomodam. Fico imaginando Jesus: era um
cara super provocante e estar ao seu lado não devia ser
exatamente um prazer, mas um desafio, já que ele era imprevisível,
às vezes duro, capaz de chutar o pau da barraca, desafiar
religiosos, governantes e apóstolos, não receber
a própria família, dar mais crédito às
criancinhas que aos adultos. Bem, ele era diferente de todos os
outros do seu tempo – até dava um passeio sobre as
águas! - e por isso pouco entendido.
Mas eu não
estava preocupado com Jesus. Nem com nenhum místico. Estava
preocupado com os meus botões, os meus probleminhas mundanos,
capazes de ocupar 100% dos meus pensamentos diários, o
que, diga-se de passagem, é uma grande encheção
de saco.
Naquele dia, especificamente, estava preocupado com a desobediência
do meu filho. Como criança é sacana. Parece que
eles sabem exatamente o que fazer para tirar o humor do dia, colocando
o dedo justamente naquele ponto que é impossível
não gritar de dor e raiva!
E eu, achando-me
esperto, já preparara toda a estratégia. Meu moleque
é um garoto de 12 anos, com a energia de um avião
a jato... mas só naquilo que ele quer. Eu, como todo bom
pai, resolvi mostrar que a vida é mais que fazer o que
se quer, e de todas as formas pressionava ele para que ajudasse
nos trabalhos domésticos e se dedicasse nos estudos. Ele
parecia a seleção brasileira: quando parece que
tá indo, pára. Um, dois dias, é uma maravilha!
Faz tudo, mostra prazer... ou finge... mas depois... E não
adiantava nada: chantagem, ameaças, elogios, carinho, promessas,
pressão... E isto me irritava profundamente, porque, sendo
o meu único filho homem, via nele a fotografia de um fracassado,
um desses caras que querem obrigar os outros a dar um trocado
no farol, porque não têm força para ir à
luta...
Não
sei como foi, saí andando pela cidade e, pouco a pouco,
o movimento caótico do centro foi me envolvendo. Carrinhos
de catadores de papelão circulavam entre os carros, tornando
o tráfego mais difícil do que já era. Os
já famosos “guardadores de carro”, com jaquetinhas
laranja fosforescente, assoviavam a torto e a direito, tentando
fazer os clientes entenderem a sutil proposta que eles oferecem:
ou paga para nós ou... pode acontecer alguma coisa. O ar
estava carregado de fumaça dos ônibus de sacoleiros
e dos carros quase parados no congestionamento. Um som parecido
com o barulho das ondas deixava um burburinho confuso e contínuo
de gente andando, falando, com sacolas plásticas raspando
as coxas e os dentes mascando milho cozido.
Quando vi estava na porta da galeria barulhenta onde ocorrera
o primeiro encontro com Swami. Parecia alucinação,
porém eu percebia uma tênue névoa de incenso,
acompanhada do seu respectivo odor, como se houvesse uma sinalização
indicando por onde ir. E eu fui.
Nada havia
mudado. Parece que o cara não vendia nada, porque todas
as peças que eu vira anteriormente estavam lá. Incensos,
estátuas de buda de todos os tipos, luminárias indianas,
mantas coloridas, cristais. Desta vez eu estava preparado: ele
não me assustaria mais com aquele silêncio aterrador
e sua figura estática. Eu já sabia onde ele estava.
E fui caminhando, pé ante pé, talvez pensando mais
em pregar-lhe um susto. Quando estava próximo do local
onde ele se senta, aproximei-me rapidamente, quase que com um
salto. Tchan-ran! Ninguém...
Onde estaria
o barbudo? Meu pescoço todo arrepiou-se quando senti uma
mão leve pousando sobre o meu ombro direito, como se um
fantasma se materializasse atrás de mim, do nada. Prendi
a respiração e virei lentamente. Lá estava
ele. Com exceção do manto de cor lilás, nada
mudara. Mas pela proximidade podia sentir seu cheiro, que lembrava
uma mistura de lojas de ervas naturais e incensos. Vai ver que
ele era vegetariano, pois nem tinha cheiro de gente!
-
Sente-se! Ordenou-me, ao mesmo tempo em que sua mão fazia
uma ligeira pressão para baixo, empurrando-me em direção
à cadeira.
- Sabe o que é... tentei falar.
- Cale-se!
- Calma aí, deixa eu pagar primeiro a consulta!
- Cale-se!
Um longo
silêncio instalou-se no ambiente. Ele novamente me fitava
com aqueles profundos olhos negros, como se pudesse ler minhas
entranhas. Pude perceber seu peito subindo e descendo numa respiração
rítmica e lenta, e pouco a pouco eu também estava
respirando lentamente, no mesmo tempo que ele. Não sei
como, comecei a me acalmar.
- Agora está melhor, disse-me o guru. Tô sacando
que você está com problemas... de relacionamento,
não é?
Quis perguntar
como ele sabia, mas entendi que não iria adiantar, e simplesmente
deixei um:
- Sim.
- Essa pessoa você gosta muito. E não está
acontecendo aquilo que você quer. Você tem a pretensão
de achar que sabe o que é melhor pra ele. Quem você
pensa que é?
- Eu sou o pai dele! Fiquei um pouco enfesado, porque ele vinha
novamente com aquele tom acusativo que eu odeio.
- Saca uma coisa, cara. Qual o poder que você tem sobre
ele?
- Eu sou o pai. Enquanto ele é uma criança, eu mando!
- Então, bicho, se amanhã ele for atropelado e partir
dessa para melhor, manda ele renascer!
- ?!?
- Manda ele aprender a ter um trabalho legal, que dê dinheiro
e sucesso. Você consegue?
- Não, respondi, murcho.
- Manda ele se casar com uma mulher bonita, inteligente, de família
rica. É isso que você quer, não é?
Manda ele gostar de mulher. Você consegue?
Fiquei quieto.
Queria saber até onde esse papo iria.
- Cara, neste mundo não se manda em nada. Você não
manda nem em você. De repente, você sai da porta desta
galeria, tá tendo uma blitz, alguém joga um aparelho
de som lá da janela e... pumba! Já era! Um segundo
e tudo o que você tem, foi... Sacou?
Fiquei calado,
com uma dor profunda no peito. Era verdade. Não posso decidir
nada, nada na vida está sob meu controle. Nem minha própria
vida.
- Cara, a humanidade acha que pode mandar na vida. Tem gente que
vem com esse papo de querer é poder... Que cocô,
cara! Não entenderam nada! O universo já é
infinito, do jeito que é agora! Não tem que acontecer
nada, não temos que mudar nossos filhos, não temos
que ganhar mais dinheiro, não temos que comprar uma casa
nova, não temos que arrumar um marido ou mulher nova. Nada,
nadinha! Pensar assim é uma arrogância tremenda,
e dizer pra Deus que ele está errado porque não
me deu o que eu quero. É atitude de criança, meu...
- Mas eu não posso querer nada? Eu não posso educar
meu filho?
- Cara, vou lhe dar uma dica: tudo o que você faz que lhe
traz sofrimento, está errado. Se você está
sofrendo em busca de coisas, está errado. Se você
está sofrendo querendo mudar os outros, está errado.
Você não tem o poder de mudar ninguém. Nem
Jesus conseguiu mudar os apóstolos! Era tudo um bando de
gente sem fé... O homem não veio ao mundo para mudar
nada. Seu filho parece errado para você porque você
se sente errado perante seu pai e sua mãe. A vontade de
mudar o outro é sempre a sua própria vontade de
refazer o que você acha que é o seu erro. Sacou?
- Então, quem está errado sou eu?
- Não, não, não! Cara, tira essa mania de
querer consertar o mundo. Tira esse sentimento de culpa! Vou dar
outra dica: seu filho não tem nenhuma responsabilidade
pelo que aconteceu com você e seus pais. Aceite seus pais
como eles foram, porque eles também tiveram motivos para
agir como agiram. Aceite você como você é.
Passe o que você acha que é correto ao seu filho
e... esqueça. Não eduque na base de resultado, de
comportamento. Seu filho terá duas alternativas: agir externamente
como você quer e estar por dentro morrendo de raiva, ou
não fazer o que você quer e te deixar com raiva.
Qual das duas você prefere?
- Nenhuma, exclamei!
- Então, bicho, faça o que eu falei. Aceite seus
pais. Você consegue? Aceite a si mesmo. Aceite seu filho.
Eduque, mas esqueça resultados, porque o único resultado
que existe nesta vida é a morte. Ninguém manda nada
em ninguém. É o destino de todos.
- Mas isto é resignação...
- Cara, faça o que tô falando, bicho. Não
discuta. Sua mente diz resignação, porque ela quer
dizer: não quero! Eu é que mando no pedaço!
Esqueça, bicho. Aceitar tudo como é, de coração,
é liberdade total, é luz... É nesse ponto
que começam as mudanças, os milagres. É quando
deixamos de confrontar, de negar o óbvio, de usar força
para reagir, quando deveríamos deixar a própria
força se extinguir naturalmente... A última vez
que falo pra você: o mundo, nem ninguém tem que ser
mudado. Viva, faça, mas sem colocar força... depois
você volta aqui.
Fiquei
novamente sem palavras.
- Quanto é mesmo? Falei, buscando a carteira.
- Cai fora, cara! Você não entendeu nada dessa questão
de se sentir devedor, da primeira vez que esteve aqui...