Parte 3
...
a grana não vem!
Tocou a campainha.
Fui atender. Era o carteiro. Até que esse cara era simpático:
com aquela camisa amarela característica e a bermuda azul;
os cabelos grisalhos lembravam de longe, mas bem de longe mesmo,
quase na Patagônia, o Richard Gere. O rapaz tinha um montinho
de envelopes na mão e, sempre que o via, vinha uma certa
angústia: será que tem mais alguma cobrança
para mim?
Talvez você
se lembre do primeiro episódio do meu encontro com Swami
Galvão, quando disse que odiava me sentir cobrado... pois
é! Este sentimento de estar sempre devendo já vem
de longa data. Antes mesmo de eu saber o que é SPC, Serasa
e outras siglas infames do mesmo naipe, já me sentia devedor.
Antes mesmo de ganhar o meu próprio dinheiro, ou tentar
ganhar, esta maldita sensação me perseguia. De onde
será que vem? Você tem alguma idéia? Pode
me ajudar a encontrar a causa desse trauma? Sim? Então,
vamos lá...
Será
que a origem de tudo isso foi quando eu, após uns cinco
anos andando atrás da Marta, minha vizinha e colega de
classe, louquinho de vontade de aprofundar mais nossa relação
- que até então não passava de “oi!”
e “tchau!” - a vi, toda fogosa, com seu corpinho recém
chegado à puberdade, beijando descaradamente um outro infame
aluno da escola, que não era eu? Senti-me completamente
traído: como ela fez isso comigo? A partir de agora, metade
da nossa relação está cortada: só
vou falar “oi!” e não vou dizer “tchau!”...
Ou será
que tudo começou quando fui um dos primeiros lugares de
um concurso municipal de um trabalho sobre a marinha brasileira
e minha avó, que era a responsável por minha criação,
não esboçou sequer um sorriso de contentamento quando
entrei dizendo orgulhosamente da minha colocação?
Inclusive disse que eu não iria participar do prêmio,
que era uma viagem para o Rio de Janeiro! Que audácia!
Senti-me um lixo, sem apoio e merecimento... É lógico
que depois ela mudou de opinião, mas aí o estrago
já estava feito e eu sentia que mesmo que fizesse algo
importante, ninguém me reconheceria... pobre de mim...
Ah, já
sei! A sensação de me sentir devedor e errado aconteceu
quando descobri, nas reuniões de pais e mestres, que meus
colegas tinham pais! É, pais de verdade, sabe?uns caras
mais ou menos com trinta anos de diferença... e eu tinha
o meu sexagenário avô nas reuniões...
E aí?
Você descobriu a causa do meu sentimento de culpa? Sim?
Depois você me fala...
Peguei as
cartas e para alívio meu e da minha auto-estima, não
havia os famigerados envelopes de cobrança. Resolvi que
não podia esperar alguém me responder onde está
o problema e saí por aí, meio querendo-não
querendo achar o Swami.
Saí
caminhando. É! A pé! Do Paraíso até
a Liberdade. Ruas esburacadas, algumas faculdades a mais, e lá
estavam elas, as indefectíveis lanternas vermelhas, enfeitando
o velho bairro oriental da Liberdade. Na verdade, não sei
o que estava fazendo lá... afinal, o local de atendimento
do Swami ficava umas duas estações de metrô
mais para o centro.
Mas tudo bem.
Familiarizado com o bairro onde morei alguns anos - hoje com muito
mais chineses que japoneses - estava andando calmamente entre
a multidão, quando uma coisa ao longe me chamou atenção.
Alguém com uma roupa muito berrante, como um carmim reluzente,
e um incomum turbante na cabeça, caminhava a passos largos.
- Ei! Ô,
Swami! Espera! Quero falar com você!
Alguns chineses
me olharam e disseram uma coisa parecida a “chentchipawtupatchan”,
talvez desaprovando os meus gritos no meio da rua. Concordei com
eles, com um sorrisinho amarelo, e apertei meus passos, tentando
alcançar a pessoa que julguei ser o Swami.
Felizmente
a roupa estilo "Portela na avenida, neguinho da beija-flor"
não me deixava perder o contato visual... e assim fui indo,
por entre lojas de panelas de arroz elétricas, futon e
kimono, importados chineses, restaurantes japoneses e chineses
e uma multidão de turistas extremamente lerdos para o ritmo
de São Paulo. Será que eles não sabem que
aqui a gente corre até para ir ao curso de meditação?
Enfim, alcancei-o e toquei seu ombro.
- Pô,
cara! Você aqui!
- É, respondi, esbaforido. Queria lhe ver, e nem sei como
acabei encontrando você aqui!
- E para que quer saber como, meu? As coisas acontecem, simplesmente,
e aí está a graça. Eu tô aqui, você
tá aí. Sabe aquela do mágico que mostra todos
os truques na televisão?
- Sei, o Mr. M!
- Sei lá o nome do cara... A única coisa é
que é tudo truque. E quando você vê, o que
acontece? Ah... era assim... Como eu não pensei nisso antes...
Se você quer saber como acontecem as coisas na sua vida,
sério mesmo, vai descobrir que é tudo truque, e
que não existe mágica nenhuma. E aí corre
o risco de dizer: pôxa, mas é só isso, e
então não existe a mágica de verdade? Sacou?
- Não. Então quer dizer que o fato de eu querer
te encontrar e te encontrar é um truque? Não é
real...
- É isso aí...
- Mas como pode ser? Eu queria falar com você, você
está aqui, na minha frente! O meu desejo se concretizou!
Respondi, enfaticamente.
- Corta essa, cara! Quem disse que você tinha esse desejo?
- Eu não tinha? Então o desejo era seu?
- Sem essa, meu. Nem meu, nem seu. As coisas acontecem, simplesmente.
Fiquei encafifado.
Está todo mundo dizendo que existe uma lei da atração,
que aquilo que você mentaliza, acontece, e o guru diz que
as coisas simplesmente acontecem. Continuamos a andar e percebi
que sua pele morena não apresentava nenhum pingo de suor,
embora o dia estivesse bastante quente. Ele andava rápido
e mesmo assim os músculos pareciam não se mover.
- Cara, você
não acredita, não é? – continuou ele.
Sempre acreditando que a mente pode mandar no universo. Você
quer o Swami, e o Swami aparece... fácil, né? Veja
bem, zé mané...
- Ôpa... – já ia reclamar, mas ele não
deixou.
- Cala a boca, cara! Quantas vezes você pensou “quero
dinheiro!”?
- Um monte!
- Quantas vezes você pensou “quero aquela menina bonita!”?
- Trocentas vezes...
- Adiantou?
- Não, nunca.
- Quando você conseguiu uma menina bonita?
- Simplesmente quando ela apareceu. Ela me queria, eu a queria.
Estamos casados até hoje.
- E quando você conseguiu dinheiro?
- Quando não pensei que queria e nem que não queria.
Ele simplesmente veio... Puxa vida! Saquei!
Aquilo simplesmente
encheu o meu peito como uma explosão atômica. Foi
um insight genial!
- Cara, vamos almoçar? Convidei-o, animado.
O sorriso
dele foi a sua aprovação. Acho que ele ficou feliz,
porque eu entendi...