Swami Galvão de Ogum, o Místico
 
 
   

Parte 4

... vida ou morte!

Enquanto caminhávamos pelas ruas apinhadas de gente do bairro da Liberdade, resolvi puxar assunto:
- Você vê televisão?
- Não! Respondeu ele, monossilabicamente.
- Sabe, ontem eu estava assistindo a um telejornal e vi uma coisa que me espantou. Um sujeito transtornado atacou a sua própria família a marteladas, matando a esposa, os filhos, e depois saiu alucinadamente martelando os carros que estavam estacionados. Quando a polícia chegou, ele também a atacou. Então foi baleado e morreu! Como pode acontecer uma coisa dessa?
- O que aconteceu?
- Caramba, você não ouviu? O cara que deu as marteladas e...
- Sim! Ele me interrompera, como era de costume. Mas o que você quer saber? Como pode acontecer uma coisa dessa? Isso é pergunta? O que você quer saber de verdade?
- Eu quero saber por que uma pessoa pode ficar assim tão transtornada, cometendo um crime tão bárbaro!
- Olha, meu... vamos por partes, como dizia o Jack... Mostre-me uma mente que não é transtornada, desafiou-me.
- Ah, lógico, a minha não é... Eu nunca faria uma coisa dessas...
- Calma lá! Estou falando de mente. A mente não faz. Quem faz é o corpo. O que leva os miolos de um cara fritarem tanto que ele sai martelando gente por aí?
- São os pensamentos malucos. Pensamento de perseguição. Sei lá... Respondi.
- Carinha, todos os pensamentos são malucos. Vamos ver uma coisa: vai dizer que você nunca se sentiu perseguido, nunca sentiu que alguém não está dando bola para você, que alguém está faltando com o respeito... Já?
- Claro!
- Pois é. Todo mundo, a todo instante, se sente percebido, vigiado, injustiçado, mal amado... Assim é a mente. É como um cachorrinho mimado, fazendo um monte de besteira para ser percebido. Quando o maluco se identifica com este cachorrinho, ele acha que a mente é ele, que os pensamentos são tudo reais, e começa a alucinar... Todo mundo que não percebe isso está alucinando. Todo mundo acha que suas idéias são reais e que eles são o que pensam... Que besteira!
- Mas eu não sou o que eu penso?
Swami sacou um cigarro do meio das suas vestes coloridas. Lentamente acendeu, e soltou profundas baforadas, apreciando cada segundo da nicotina que entrava em seus pulmões... Não parecia ter nenhuma pressa na vida, e a sua resposta veio depois de uma eternidade:
- Não! Você está vivo, você tem vocações, tem um direcionamento que existe em si e nunca foi criado com a mente. Você tem algum talento?
- Sim, vários! Sei tocar violão, gosto de escrever, falo bem...
- E você pensou em desenvolver estes talentos ou eles simplesmente surgiram?
- Alguns vieram sem eu perceber. Outros eu me desafiei a melhorar... mas acho que o talento e a vontade já existiam... não foram criados pelo pensamento!
- Sacou, cara! Tenta criar uma vocação agora, neste momento, com a mente, e vê se você vai achar real. Fala para você mesmo: eu vou dirigir carro de corrida igual ao Senna! Ou sem forçar muito: vou ser um piloto de ponta! Dá?
- Não dá.
Íamos falando enquanto descíamos a rua Galvão Bueno. Os letreiros em japonês passavam lentamente, ao ritmo do nosso passo, mas o papo estava tão interessante que eu não percebia a multidão esbarrando em mim, aquelas centenas de rostos orientais desfilando em meio aos ocidentais, o cheiro de bolinhos de arroz, yakissoba e temperos invadindo minha percepção. Swami atingiu meu braço com o seu cotovelo, querendo dizer alguma coisa:
- Sabe o caso que você falou, o do martelo? Perguntou.
- Sim.
- A mente dele é tão transtornada quanto a de qualquer ser humano. A diferença é que cada pessoa tem um filtro, um departamento de censura, que impede que você passe do limite socialmente aceito. Sabe aquele carinha de oclinhos, o Freud?
- Sim, óbvio. O pai da psicologia moderna.
- É, esse cara já tinha descoberto que todo mundo tem um monte de piração na cabeça. Não existe nenhuma diferença entre uma mente e outra. Todo mundo pensa em sexo, de diferentes formas, todo mundo tem raiva, mágoas, maus sentimentos, vontade de fazer coisas proibidas. E também tem valores, bons sentimentos, vontade de agradar e ser agradado... A diferença é você deixar os pensamentos doidos dominarem... ou não! Até o Freud transava com suas clientes...
- Acho que entendi... só que tem uma diferença entre eu tomar duas cervejas a mais do que deveria, transar com os clientes e dar uma martelada na cabeça de alguém! Ou não?

- Qual a diferença?
- Ora, Swami! Uma coisa é beber um pouco. Ou deixar-se levar pelo instinto. Outra coisa é matar alguém.
- Quem morreu?
- A mulher e dois filhos! E depois o doido.
- Como você sabe que eles morreram?
- Porque tava lá os corpos! Onde você quer chegar?
- Não existe morte. Estas pessoas já eram antes de nascerem, e continuam sendo agora. A mente acha que pode matar, porque a mente é uma gravação que vai ser apagada quando o coração parar de bater. As vezes a mente apaga antes da morte física: uns caras batem a cabeça e ficam com amnésia, não lembram de mais nada. Significa que a mente apagou, e tem que gravar coisas novas... Imagine que uma pessoa com amnésia é encontrada milhares de quilômetros de distância de onde morava, e é adotada por moradores locais... Tudo que ele vai reaprender é novo. Um nome novo, uma família nova, conceitos sobre religião e moral novos, gostos de comida novos, prazeres novos, raivas novas...
- É, isso é verdade... Mas quer dizer que um cara pode matar outros?
- Não, isto não é natural... Isto é doentio. O ser humano tem o instinto de preservação, entende? É igual bicho, todo mundo quer viver e não quer se ferir. É da natureza! Se está se matando sem sentido, é doentio. Mas tudo isso é muito superficial, cara. Ninguém morre, ninguém vive. É uma ilusão até que existem pessoas separadas, umas das outras. Todos somos um só. Não vemos porque nossos olhos e sentidos não conseguem ver. Acho que você está confundindo o moralismo com realidade. Quando as religiões falam não matar, isto não é de Deus, porque Deus criou tudo tão jóia, tão bacana, tão perfeito, que é impossível estragar o que Deus criou. O homem não pode matar nada criado por Deus! Se ele acha que pode, é porque está se achando maior que Deus... A questão é que “não matar” é uma coisa social, é uma lei que serve para os homens.
- E não está correta?
- Como lei social, talvez. Mas Deus nunca falaria isso. E tem mais uma coisa: tirando os caras doentes, e isto serve para muitos presidentes deste planeta, atacar e matar é contra a natureza humana. As pessoas estão deixando se dominar pela mente doentia delas, e não estão mais ouvindo o departamento de censura. E sabe por quê?
- Não, perguntei com curiosidade.
- Porque deixaram se contaminar pelo querer. A propaganda fala cada segundo o que você tem que querer para ser legal – e, claro, pra vender. Um celular, um carro, um emprego, um salário, uma calça, uma casa, umas férias, uma viagem, um peito empinado, uma família assim ou assado... A mente, como todo bom gravador irracional, grava tudo, e depois repete. O homem acredita que é a mente, que são seus pensamentos, e começa a querer coisas que não tem. Daí, começa a se esforçar como louco, passa em cima da sua saúde, da família, dos colegas, dos concorrentes... Consegue algumas coisas, mas nunca está satisfeito. Daí, quer mais. Em nível de países, é a mesma coisa. Tem país por aí que acha que precisa ter mais e mais e mais... Deste nível para agredir o outro, roubar, matar, é um pulinho...
- E é isto que aconteceu com o cara que deu as marteladas? Ele queria alguma coisa que não deram e saiu matando? Quis provocar um pouco o meu guru.
- Não carinha. A idéia é a mesma, mas o que ele achava que faltava na vida dele não eram coisas materiais. Era aceitação, amor, carinho. As pessoas são abandonadas ou maltratas pelos pais, e acham que não estão recebendo amor, o que é uma grande mentira. Porrada, conforme o caso, é amor. Tem muito neguinho no mundo que endireita porque teve uma criação dura. O deserto e o gelo formam os homens mais fortes e resistentes. Tudo é justo neste mundo, e quem leva porrada é porque necessita desta porrada para despertar o ser que existe dentro de si. E os pais que não tratam com carinho os filhos é porque também não foram tratados com carinho. Isto é natural e deve ser aceito. Mas o cara não aceitou. Ao contrário, deve ter ficado com muita mágoa das pessoas que não davam o que ele achava que precisava. Daí para a maluquice é um pulinho!
- Como você pode ter certeza disso, se nem conhece o caso?
- Porque é sempre assim, meu... Toda a infelicidade humana é gerada por uma mente que tem necessidade de alguma coisa que acha que falta. Mente sempre vai ver falta, porque ela é um gravador com capacidade enorme de armazenar dados. Quanto mais coisas se coloca na cabeça para querer, existe mais espaço para querer mais e mais. No fundo, todas as mentes querem amor, mas o amor já é a essência do ser humano, de cada grão de alimento, de todo o universo. Um sujeito centrado em sua própria mente não vai ver amor em nada. As vezes pode até sentir, mas não vai estar em poder deste amor... O segredo é dar um passo pra trás e observar a própria mente a distância. Depois, observar o amor que existe em tudo, até na formação da própria mente.
- Como posso observar as coisas sem a mente?
- Somente observando. Nenhuma atividade a mais. Nada. Só observar...

Estávamos na Rua dos Estudantes, na porta de um pequeno e simplesmente decorado restaurante chinês. Swami se calara subitamente. Minha pobre mente estava confusa e meu pobre estômago já dava pulos de fome. A alma fora alimentada com palavras que eu não entendera, porém, tinham coerência. Chegara a hora de alimentar o corpo.

Alex Possato

 

 
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