a sua lhe curou!
 
 
   

Osmar Miyashiro é um sessentão curioso: seus cabelos grisalhos mais compridos que curtos lhe emprestam um ar de força e respeito. Seu rosto é largo e o sorriso é esprimido, como se houvesse um eterno sarcasmo impresso nos lábios. Ele é muito conhecido no seu meio: já é ministro da sua religião há quarenta anos e muito se tem a contar dele. Na verdade, ele mesmo não faz questão de esconder os seus feitos: dizem que até gente em cadeira de roda ele fez andar. Não duvido. Convivi durante um bom tempo em estreita proximidade com ele, que se tornara um lider nacional, e embora não houvesse muita intimidade, havia respeito recíproco.
Eu tinha um trânsito muito grande dentro desta instituição mais filosófica que religiosa, e ouvi da boca de muitos, pelo Brasil inteiro, dos muitos acontecimentos milagrosos que ocorreram na presença deste líder. Cura de doenças, até câncer, recuperação financeira, harmonização de famílias... Inclusive um grande fazendeiro de cana-de-açúcar da região de Ribeirão Preto, dono de usinas e chefe de dois mil funcionários convidou-o para realizar um trabalho de harmonização da própria família, onde havia intenso tiroteio verbal e emocional entre os herdeiros e, conseqüentemente, grandes prejuízos financeiros. E deu certo! Hoje os negócios vão de vento-em-popa! Tudo aconteceu através da conscientização da necessidade do respeito aos antepassados e aos fundadores do negócio.
Mas a grande questão é: Osmar tem o dom de curar? Era ele o responsável pelas harmonizações, soluções financeiras, etc?
Na verdade, nem ele acreditava nisso: embora tivesse grande fé nas suas crenças, ele mesmo não tinha certeza de que poderia ser responsável por alguma cura. Tanto que quando ouviu que alguém se curara de câncer após estar presente numa palestra sua, no interior de São Paulo, foi até o local e pediu à pessoa que havia recebido a “graça” comprovações médicas sobre o feito.

O que é a fé que cura?

Não apenas ele, mas inúmeras pessoas tanto desta religião como de outras estão presentes em momentos de cura. E também a medicina, a psicologia e terapias presenciam os “milagres” cotidianos. Jesus dizia: “a sua fé lhe curou”.
Olhando para o nosso mundo, vemos que pessoas de inúmeras crenças diferentes passam por recuperações espantosas, e portanto fé não significa uma religião específica. Porém, vemos também recuperações espantosas que se passam em ambientes médicos e consultórios de psicologia e terapia. Assim, a fé também não quer dizer especificamente crença em Deus. Lembro de um caso de hidroencefalia (água no cérebro) que desapareceu quando a pessoa atingida pela enfermidade foi orientada a cuidar do túmulo de um tio, que estava abandonado. Curioso? Pode ser, mas foi verdade. E o respeito e reverência a este antepassado trouxe a cura. Presenciei numa religião japonesa o desaparecimento de um abscesso enorme através da imposição de mãos.
Portanto, parece que existem inúmeras formas de ocorrerem curas, e eu pergunto: onde está a fé, em todos estes casos?

A fé está na entrega

Pode parecer contraditório, mas a fé é exatamente não querer a cura. A fé é aceitação, acolhimento, humildade perante o destino. Não querer a cura não significa querer a doença e deixar de buscar solucionar o problema. É apenas dizer: eu aceito as coisas como são, e faço o meu caminho com suavidade. Eu digo sim à vida, do jeito que ela é.
Fé é transcender a matéria. Enquanto focamos a doença, a dor, o sofrimento, estamos focando absolutamente coisas materiais, formadas por células materiais, pensamentos materiais e emoções materiais. A fé foca-se numa realidade que está além de tudo isso, que é a realidade infinita da vida, não importa o nome que se dê a ela. Ela pode ser percebida com o coração, não com a mente, e por isso a importância do “dizer sim”.
A mente quer a cura; o coração aceita a vida. A mente quer dominar; o coração acolhe tudo e todos. A mente tem medo; o coração vibra. A mente duvida e retruca; o coração tem certeza.
Tudo isto não pode ser realizado por Osmar, médicos, missionários, terapeutas – grupo no qual eu me incluo. Todos estes podem fazer apenas uma coisa: apontar o coração. Algumas pessoas aceitam e se recuperam. Outras aceitam e não se recuperam. A maioria não ouve, e continua presa na mente tagarela. De qualquer forma, o caminho da cura se encontra no grupo dos que aceitam, o que não significa que ocorrerá a cura física. Mas com certeza os que aceitam iniciam a cura da alma, que é muito mais gratificante, pois é a alma que dá prazer na vida, e nos faz ver que o mundo é maravilhoso, do jeito que ele é, com suas doenças, mazelas, feridas, e também flores, crianças, seres humanos maravilhosos, o sol, a chuva...
E as vezes, quem sabe, ocorre algo mais...

Alex Possato

 
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