Aladim é um cearense nascido
em Quixeramobim, terra do lendário Antonio Conselheiro.
Por que este nome? Aladim não sabe explicar. Nem conhece
a história original, narrada no clássico livro de
contos árabes, As Mil e Uma Noites. É possível
que seu pai, seu Firmino, também nunca ouvira falar do
livro, até porque não sabia ler nem escrever. Mas
isto não vem ao caso.
Fato é que estava Aladim a passear a pé, numa das
muitas andanças que ele fazia por não ter absolutamente
nada para fazer, lá pela caatinga do Vale Monumental, quando
se deparou com um objeto estranho, semi enterrado. O brilho incomum
e o reflexo da luz solar chamavam a atenção.
- Ôchi! Que danado é, homi? Indagou ele, consigo
mesmo.
Agachou-se, e com um pequeno esforço descobriu aquilo que
parecia ser uma lamparina.
- É danado mesmo! Óia o que achei! Será que
tem valor?
E pôs-se a esfregar o objeto com as costas do braço,
tentando limpar a terra e poeira da lamparina. De súbito,
uma fumaceira começou a sair, dando um susto danado no
pobre homem, que jogou a coisa longe com medo de se queimar.
- Vige! Eita piula!
Da fumaça que não parava de sair, aos poucos foi
tomando uma forma de homem. Os olhos de Aladim quase caíram
das órbitas, quando surgiu na sua frente aquela figura
estranha e enigmática.
- Quem é tu, ô cabra? Perguntou.
- Eu sou o gênio, respondeu a figura, com um sotaque paulista.
- Quer dizer que ocê sabe tudo?
- Não, filho de Deus! Eu sou o gênio da lâmpada,
realizo desejos! Nunca ouviu falar?
- Vige! Quer dizer que tu sai dessa inhaca toda e realiza desejo?
Conta outra!
- Olha, eu não tenho o tempo todo pra perder. Se você
não acredita, não faz mal. Vou embora e arrumo outro
cabra pra fazer rico!
- Ôpa, ôpa. Não se avexe, não. Tô
brincando. Diga lá: o que é que eu tenho que fazer?
O gênio respirou aliviado. Arrumou a camisa dentro da calça,
escondendo a barriga arredondada e o umbigo que teimava em aparecer.
Ajeitou o óculos redondinho, estilo John Lenon sobre seu
nariz achatado e gorduroso e coçou a barba rala.
- Bem. Vou explicar com calma. Tudo o que você quiser de
verdade, lá do fundo da alma você pode conseguir.
- Sério, hómi? Então me dá...
- Calma lá... Do fundo da alma, eu falei. E ainda não
acabei. Tem mais duas coisas. Tem que acreditar profundamente,
não haver dúvida nenhuma que irá conseguir.
- E...
- E entregar o pedido ao universo, com respeito e humildade, pois
o universo atende somente aqueles que nele crêem, sem ansiedade,
sem cobrança...
- Não tô entendendo não. Como é que
eu posso pedir, acreditar e depois não ficar esperando?
- É isso aí. Pedir, acreditar e entregar ao universo,
sem ansiedade. Entendeu direitinho. Vou te explicar melhor: tudo
na natureza vem na hora certa. Olha a sua cidade: está
no meio do Ceará, o clima é uma secura danada, e
mesmo assim tem um monte de espécies de pássaros.
O que acontece com os pássaros quando a seca tá
brava?
- Eles vão para outro lugar...
- É isso aí. Os pássaros estão sintonizados
com a natureza, e conseguem tudo o que eles precisam, seja aqui,
seja em outro lugar. Para você conseguir as coisas que quer,
deve estar sintonizado com a sua natureza.
- Mas eu não sou pássaro! Eu sou hómi!
- É isso aí. Você é homem e deve estar
sintonizado com a sua natureza de homem. O que você sente
que quer?
- Eu quero um milhão de real!
- O que eu falei? Pedido sincero! Quer ver como isso não
é sincero?
- Quero!
- Feche os olhos. Imagine-se com muito, muito, muito dinheiro.
O que você ia fazer?
- Eu ia dar uma casa pro meu pai, também para meus irmãos,
ajudar o padre... Tomar um supupara...
- Pode parar! Tá vendo? Você não quer dinheiro.
Você quer fazer caridade!
- É lógico! Tem que usar o dinheiro para o bem.
- Para o bem? Dar pros outros? E construir empresas, dar emprego,
vender produtos e serviços não é usar bem
o dinheiro? E fazer o dinheiro multiplicar? Se você quer
fazer caridade, com esse espírito de pobre, continuará
pobre – vai gastar tudo, e não ganhar nada.
- É?
- E outra coisa. Por que não faz caridade agora? Por que
não ajuda seus irmãos agora? Por que não
ajuda o padre, agora?
- Eu não posso... não tenho nada – retrucou
Aladim, com os ombros caídos.
O gênio sentou-se em um morro e falou para o rapaz acomodar-se,
e falou:
- Olha, você tem tudo que precisa. Vou explicar passo por
passo. Para conseguir o que você quer, tem que tirar carteira
de motorista de lâmpada, entendeu?
- Não.
- Para dirigir um carro, não tem que tirar carteira de
motorista?
- Sim.
- Então, para pedir coisas para a lâmpada, também
tem que saber. Se não, você pode se danar o tempo
todo.
- Mas eu já tô danado.
- É porque não sabe pedir, não acredita e
não entrega. E nem se mexe. Vou explicar. Primeiro, comece
percebendo a sua natureza. Ouça, sinta, perceba o que a
sua natureza fala pra você. Você nunca teve uma sensação
de que uma coisa dentro de você mandava fazer alguma coisa,
e isso seria para o seu bem?
- É, tem uma coisa. Mas eu não fiz. Deu um medo,
fiquei cabreiro e não fiz. Mas acho que tinha que fazer.
- É isso. A natureza manda certinho naquilo que a gente
tem que fazer. Medo é normal. Qualquer coisa nova dá
medo. O que é que você ia fazer?
- Óia, eu ia pra São Paulo. Ia trabalhar lá
e alguma coisa fala pra mim que eu ia me dar bem. Meu primo Vivelino
foi pra lá, começou a trabalhar numa gráfica,
aprendeu, depois montou uma gráfica e tá muito bem.
Até casou!
- Tá começando a entender. O dinheiro não
cai na mão do nada. Você sintoniza com a sua natureza,
vai atrás, se mexe, e aí começa a pedir.
Quando você tá indo rumo ao que a sua natureza quer
de você, o universo todo está indo com você.
Aí é fácil acreditar e esperar que a hora
certa vai chegar. Entendeu?
- Mas então tu tá me enganando? Tá me achando
com cara de brocoió? Quer dizer que é eu que tenho
que fazer tudo, trabalhar, me esforçar?
- Ô, cabra. Tá difícil. Você não
tem que fazer nada! Você acha que é um esforço
pro pássaro ir pra outro lugar quando acaba a comida aqui?
Não é não! Para ele é natural, porque
faz parte da natureza dele! O universo já providenciou
tudo o que ele necessita. E também já fez tudo por
você! Tá tudo prontinho! É só você
se colocar em sintonia com o universo, e as coisas acontecem!
Trabalhar naquilo que é a sua natureza é uma diversão,
não é trabalho. Viver a sua natureza é muito
bom!
- Ah, não sei não...
- Tá certo. Faz o seguinte: liga pro seu primo lá
de São Paulo, e pergunta sobre a lâmpada que ele
achou.
- Achou uma lâmpida também? Ah...
- Que foi?
- Não tenho dinheiro não pra interurbano!
- Então, quer saber de uma coisa? Vá se catar.
E o gênio e a lâmpada desapareceram, numa nuvem de
fumaça.
- Ôchi! Eu não tenho sorte mesmo...
Agora que ia trocar a lamparina por uma pinga na bodega do Mané!
Alex
Possato