Aquele casamento era o fim das aventuras, dos romances,
das traições! Era exatamente o que Alberto tinha
em mente quando reencontrou o grande amor da sua adolescência.
O coração batera forte como nunca e a atração
não era sexual como fôra tantas vezes antes, em seus
inúmeros casos desfeitos, dois filhos deixados para trás
e tantas mulheres desconsoladas pelo caminho...
Ainda
jovem, encaminhados profissionalmente, na faixa dos trinta, os
dois poderiam formar uma família feliz, ter filhos, construir
a vida financeira, o sonho de qualquer família que se inicia.
E
assim aconteceu: Alberto, estatura baixa, longos cabelos loiros
e olhos azuis, um ar de “preciso de carinho” que também
podemos perceber em alguns atores de Hollywood, estava decidido
a estabilizar sua vida. Raquel, sua esposa, cabelos negros, bonita,
com o peso acima da média, era muito jovial, inteligente
e também queria um relacionamento sério após
um casamento frustrado. Viveram os primeiros dois anos muito bem.
Habitando o pequeno apartamento de Raquel, numa rua tranqüila
da zona oeste de São Paulo, tinham muitos amigos, faziam
festas, viajavam, se divertiam, a vida sexual ia de vento em popa.
Nasceu a primeira filha e justamente no dia do parto Alberto tomou
um porre. Teria sido natural não fosse o seu histórico
de bebedeiras desde a adolescência. Mas ninguém notou
exatamente um problema.
O
consumo de álcool foi ficando progressivamente mais acentuado
e Raquel começou a ver seu marido se distanciando pouco
a pouco. Muito preocupada em ser uma boa mãe apegou-se
em cuidar da primeira filha com zelo excessivo e exatamente por
isso não conseguiu realizar grandes esforços em
busca do marido cada vez mais fugidio. Brigas, cobranças
e reclamações começaram a fazer parte da
rotina daquela casa. Partiam sempre de Raquel, já que Alberto
era muito silencioso a respeito de seus sentimentos: era muito
difícil para ele se abrir, embora desse para ver por seu
comportamento que estava passando por intensas cobranças
interiores. No nascimento da segunda filha já havia um
cheiro de traição no ar. E era real. Nesse período
Alberto já estava se relacionando com outra mulher, com
quem acabou tendo outro filho. Era o fim do sonho de estabilidade
familiar. A história se repetiu novamente: tanto um, quanto
a outra não deram certo na vida sentimental, tal qual ocorrera
anteriormente.
O
sistema das Ordens do Amor influenciam os relacionamentos
Por
que o relacionamento entre Alberto e Raquel não deu certo?
Os dois estavam “vacinados” por relacionamentos frustrantes.
Eram inteligentes, não tinham problemas financeiros, se
amavam de verdade... Alberto queria ser pai, marido, profissional
respeitável, mostrar o seu valor. Raquel queria ser mãe,
ter estabilidade financeira, ser uma esposa carinhosa e dedicada,
ser acolhida pelas pessoas. Nada disso demonstrava razão
para não dar certo a relação. Certo? Errado!
Um relacionamento não vai dar certo porque alguém
quer ser um bom marido ou alguém quer ser uma boa mãe.
O querer não influencia nada, pois o querer geralmente
é baseado em crenças, idéias transmitidas
pelos pais, professores, sociedade em geral, e não refletem
as sensações mais profundas da alma humana, que
é onde reside o amor.
Não é necessário querer, porque o amor está
em tudo e em todos. Então, como fazer dar certo num relacionamento?
Boa
pergunta! Os relacionamentos são influenciados pelo sistema
das Ordens de Amor, conforme explica o octagenário psicoterapeuta
alemão Bert Hellinger, criador da revolucionária
terapia de Constelações Familiares. “As Ordens
de Amor são forças dinâmicas e articuladas
que sopram e revoluteiam em nossas famílias ou relacionamentos
íntimos. Percebemos a desordem que sua turbulência
nos causa – como as folhas percebem o redemoinho –
sob a forma de sofrimento e doença. Em contrapartida, percebemos
seu fluxo harmonioso como uma sensação de estar
bem no mundo”, diz Hellinger.
Quando
o sistema das Ordens de Amor é desestabilizado, muitas
vezes devido a atitudes e sentimentos de nossos pais ou avós
ou por existir alguém que foi discriminado e excluído
do sistema familiar, por mais que uma pessoa tente “dar
certo”, alguma coisa a leva a ter atitudes que trazem sofrimento.
Para que haja o reequilíbrio do sistema é necessário
reconhecer as Ordens e aceitá-las profundamente. Isto é
feito num trabalho denominado Constelação Familiar,
prática que é realizada em grupo ou individual e
traz mudanças imediatas a todas as pessoas que participam.
O
que desequilibra o sistema das Ordens de Amor
É
bom frisar que o que desequilibra o sistema não é
ruim. E o que equilibra não é bom. O fogo aquece
a comida. Mas também queima um hospital. As Ordens de Amor
não comportam conceitos moralistas e valores baseados em
julgamento de bom ou mal: elas simplesmente se mostraram –
não foram inventadas - através da observação
de Hellinger durante décadas de trabalho com grupos e terapia.
E
uma das coisas mais notáveis que ele verificou foi a questão
de que as pessoas estão ligadas umas às outras dentro
da família, de uma forma que a biologia atual teoriza como
campo morfogenético. Esta ligação é
muito mais intensa e não requer o conhecimento entre os
parentes. Características de comportamento, emocionais
e até de metas e vontades são transmitidas de um
para outro membro da mesma família e também de pessoas
que tiveram envolvimento emocional intenso (amantes, namorados,
primeiros parceiros de casamento).
Pessoas
excluídas dentro desse sistema necessitam ser incluídas,
pois as Ordens de Amor simplesmente transmitem a exclusão
até que aja a inclusão. Crianças abortadas,
amantes abandonados, pessoas assassinadas, suicidas, parentes
esquizofrênicos, todos devem ser incluídos. Esta
é a segunda descoberta muito importante dentro da Constelação
Familiar: todas as pessoas, sejam elas deficientes, infiéis,
com condutas sexuais não convencionais e até criminosos
têm o direito de pertencerem ao grupo. As constelações
familiares demonstram que existe amor dentro de todos e todas
as atitudes são influenciadas diretamente na busca inconsciente
do equilíbrio entre o dar e receber amor.
Por
mais contraditório que possa parecer, é devido ao
amor inconsciente aos nossos pais, irmãos e outros familiares
que às vezes somos conduzidos a tomar atitudes que causam
o nosso próprio sofrimento. Brigas, traições,
divergências em partilhas, depressão, fugir das coisas
que dão prazer e bem-estar, tudo isso e muito mais pode
estar ligado a um desequilíbrio no sistema das Ordens de
Amor da nossa própria família, onde assumimos responsabilidades
e cobranças que não são nossas.
Mas
o Amor tem o dom de restabelecer o equilíbrio e trazer
a harmonia ao sistema. É um amor muito mais profundo do
que a simples palavra amor. É um amor de aceitação.
É um amor de respeito aos que vieram antes. É um
amor de entrega. É um amor de reconhecer e aceitar a própria
atitude. É um amor que não cobra nada de ninguém.
É um amor que não vem pela mente e é sentido
em todo o corpo. Este é o amor curador que surge nas Constelações
Familiares, uma das mais incríveis técnicas psicoterápicas
da atualidade.
Alex
Possato