Estávamos numa dinâmica
de Constelação Familiar segundo Bert Hellinger.
O personagem do pai de Ivo olhava fixamente para uma direção
onde não havia ninguém. Conforme o posicionamento
dos personagens dos filhos e da esposa não havia uma atração
deste pai pela sua família... Alguma coisa, uma força
irresistível puxava a sua atenção, o seu
amor, para fora do ambiente familiar. O que seria, ou melhor,
quem seria?
Sabemos,
pelo trabalho de constelação, que é muito
comum uma pessoa ficar presa, ter os seus sentimentos e emoções
atreladas a uma pessoa que foi excluída do seu convívio,
sem o devido respeito e reconhecimento. Pode ser um antigo amor
onde houve um rompimento ou, às vezes, até uma traição
e as arestas não foram aparadas. Sobrou mágoa para
todo mundo. Depois os anos passam, achamos que o caso ficou morto
e enterrado, mas lá no fundinho do coração
existe a culpa de algo mal resolvido. Bert Hellinger descobriu
em seu trabalho psicoterapêutico que existe o amor em todas
as relações, absolutamente todas. Este amor não
são as atitudes padronizadas pela midia ou pela moral,
mas um sentido de união entre as pessoas; afinal, somos
todos um.
Quando excluo alguém – um antigo amor, um aborto,
um suicida, um esquizofrênico, um filho bastardo, um pai
severo, uma mãe omissa – seja lá quem for,
estou excluindo a mim mesmo e o amor que flui naturalmente nas
relações humanas fica interrompido.
O
pai de Ivo olhava fixamente para uma direção onde
não havia ninguém. Como normalmente fazemos nesta
dinâmica, colocamos um personagem na direção
do olhar. “Havia um antigo amor do seu pai que foi esquecido,
abandonado, mal resolvido?”, perguntou-se ao cliente. “Não,
que eu saiba... espera aí. Sabe de uma coisa? Lembro que
meu pai contou uma história de que ele viajara para a Espanha
e lá tivera uma namorada. Um relacionamento bem intenso.
Até acho que houve filho, embora ele nunca tenha afirmado
isso”. O semblante de Ivo iluminou-se como se uma revelação
muito importante tivesse surgido do nada!
Assim
é a Constelação! Embora não possamos
saber com exatidão o que aconteceu no passado da família
dos clientes – e nem é necessário - o sistema
onde houve a interrupção do fluxo do amor se mostra
claramente e a exclusão se demonstra. “Este relacionamento
foi antes ou depois do casamento entre seu pai e sua mãe?”
Ivo respondeu que foi antes. Aí já percebemos provavelmente
dois excluídos: um ex-amor e um filho. Este tipo de exclusão
deixa marcas no sistema familiar e geralmente um descendente acaba
assumindo “as dores” dos excluídos, de diversas
formas: pode manifestar doenças psicossomáticas,
problemas de estabilidade emocional ou, às vezes, também
tendências a procurar alguém fora do casamento, dificuldade
de “estar presente” na própria família.
No
caso específico de Ivo, ele sentia uma agonia profunda,
um sentimento de perda inexplicável que o prejudicava no
relacionamento familiar e profissional, embora ele tivesse uma
bela e equilibrada família e uma empresa que estava se
desenvolvendo. O trabalho de harmonização do sistema
foi realizado, foram incluídos os personagens que estavam
desprezados e as responsabilidades foram divididas a quem de direito.
Se houve uma exclusão era uma questão de responsabilidade
do pai de Ivo e não do próprio.
Um
sistema justo e perfeito
O
trabalho das Constelações Familiares demonstra que
não há espaço para pessoas excluídas.
A atitude comum que geralmente as famílias assumem perante
a sociedade e dentro delas mesmas, de ter uma “postura social”
onde fatos como abortos, amores traídos, filhos abandonados,
tios esquecidos, etc., são escondidos no porão,
não podem ser escondidos do Sistema Familiar e isso leva
um outro membro da família a querer resgatar a dor da exclusão
em nome de quem deveria ter feito isto antes. Este membro age
simplesmente por amor, assim como o membro que excluiu anteriormente
foi levado também pelo sistema a ter esta atitude. Não
existem culpados.
A
terapia de Constelação Familiar está plenamente
de acordo com as teorias da física qüântica
e da biologia, onde se mostra que toda a humanidade e em especial
os membros de uma família, formam na verdade um único
todo indissolúvel. Somos pequenas células de um
único organismo e a idéia de que existe separação
entre eu e o outro é apenas uma ilusão dos nossos
sentidos físicos. Amar o próximo como a ti mesmo
deixa de ser um postulado religioso e passa a ser uma obrigação
para quem deseja a saúde física, financeira, familiar
e espiritual.
Porém,
é importante saber: o amor profundo significa deixar as
responsabilidades de cada um com eles mesmos. Querer assumir as
responsabilidades de um pai, ou de um filho, ou de um marido,
ou ainda, do “coitado da rua”, do menino carente,
e assim por diante, não é amor – é
desequilíbrio.
É
necessário confiar no sistema. O nosso papel individual
é se equilibrar no sistema, se alguma coisa está
incomodando e aceitar absolutamente tudo. “Ninguém
é responsável”, diz Hellinger. “Tudo
foi guiado por uma força maior. Então, a pessoa
deveria dizer: ‘sou uma parte do movimento; não me
excluo disso.’ Basta que ela reconheça que também
faz parte disso e carrega as conseqüências, mas sem
culpa. Isso nada tem a ver com culpa. A gente não precisa
envergonhar-se. Este é um profundo processo de conexão,
algo profundamente humano que me abre para outros e tira também
do outro a resistência para se encontrar comigo”.
Aí,
o amor verdadeiro flui
Alex
Possato