O
que pode desequilibrar uma vida? O que leva uma pessoa a se desequilibrar
emocionalmente? Por que atualmente tantos relacionamentos encontram-se
desequilibrados? O que acontece?
O grande mestre
zen chinês, Yoka Daishi, dizia: “não procurar
a verdade, não cortar as ilusões”. Tanto a
filosofia zen como a taoísta já sabiam o que hoje
a neurolingüística afirma: tudo o que temos na mente
são idéias, crenças, valores que só
tem o peso que damos a elas. Quando falo “estou gordo”,
estou simplesmente afirmando uma coisa sob um parâmetro
de peso que tenho. No Japão, alguém com mais de
80 quilos é considerado gordo. Quanto que é gordo
para você?
Se dizemos
a alguém “você me prejudicou”, estamos
afirmando uma idéia de que fui prejudicado sob o meu ponto
de vista. Será que isso é verdade? Certa época
deixei de receber um alto valor que era de direito e acabei contraindo
uma dívida enorme junto aos bancos, por ter investido o
que eu não tinha na minha empresa. Os juros bancários
triplicaram o valor da dívida e isso me deu uma enorme
dor de cabeça. Durante um bom tempo senti-me lesado por
esse indivíduo. Porém, esta situação
me fez ver que, na realidade, eu gostaria de trabalhar com outro
tipo de empresa e aquela onde eu investira tanto não trazia
empolgação, motivação, prazer no trabalho.
Mudei de ramo e hoje estou muito feliz com o que faço.
A mente humana
coloca “verdades” que só são reais para
ela mesma, naquele único e exclusivo momento, e depois
combate tudo o que não corresponde a essa verdade inventada.
Se acho a cidade violenta, cada fato mais agressivo que leio nos
jornais ou ouço de comentários serve para reafirmar
essa idéia irreal. Se acho a cidade tranqüila, só
ouço as estatísticas de que o número de homicídios
em São Paulo já decaiu em 30% nos últimos
10 anos e deixo de ver qualquer outro dado sobre crimes. A verdade
é aquilo que queremos ver. Estar em equilíbrio,
como o mestre Yoka Daishi escreveu, é estar além
da necessidade de procurar verdades ou cortar as ilusões.
Isso serve tanto para as coisas externas, aquilo que podemos ver,
ouvir, sentir, pegar, como também - e principalmente -
para aqueles conceitos que temos sobre nós mesmos.
Você
é aquilo que pensa que é?
Dizemos "sou
simpático, sou tímido, sou feliz, sou triste, sou
deprimido, sou esperto, sou atirado"... Isso é verdade
até que ponto? Em que momento a mente se prende para tecer
um julgamento tão absoluto? Tudo isso, no fundo, são
crenças e todas as crenças podem ser mudadas. Num
dia eu me acho bem, noutro dia me acho indisposto. Num segundo
estou triste, no próximo, tranqüilo. A pessoa que
julguei brava agora parece-me simpática... Como diz o guru
indiano Krishnamurti, se você continua mantendo a crença
viva é porque quer fortalecer a crença e não
ver a realidade. A realidade está além de todas
as crenças, está além de tudo aquilo que
nossos pensamentos e emoções possam conceber.
Equilíbrio
no dia-a-dia
Por vivermos
condicionados por nossa educação, pela mídia
e pela sociedade como um todo que o mundo é aquilo que
julgamos, acreditamos em todos os nossos julgamentos. O pensar
é importante para tomarmos algumas decisões, para
aprendermos coisas novas, para batermos papo com as pessoas. O
problema não é exatamente o pensar, mas sim, o julgar.
Julgamos tudo. O ar está poluído ou não.
Isto é bom ou é ruim. Se é ruim faz mal à
saúde. Se a saúde vai mal vou ficar doente. Se ficar
doente não posso trabalhar. Se não posso trabalhar
minha família não terá como se sustentar.
Se ela não se sustenta meus filhos ficam fragilizados.
Se eles ficam fragilizados vão sofrer. Se eles sofrem eu
também sofro mais ainda. Se eu sofro mais ainda e estando
já doente, eu morro. Se eu morro vou para...
A mente viaja
o tempo todo. Em neurolingüística dizemos que a mente
alucina o tempo todo. E mesmo sem esquizofrenia ou neurose, alucinamos!
É uma alucinação total, um gasto extremamente
grande de energia para pensar... besteiras, coisas que não
têm fundamento nenhum! Que tipo de pensamento leva a algum
lugar? Ou será que são as pernas que levam a algum
lugar? Ou, quem sabe, um algo maior e desconhecido? Por isso é
importante soltar-se.
Soltar-se
por um instante dos significados dos pensamentos. Olhar nossos
filhos, sem julgar se eles estão bem ou estão mal,
se estão certos ou estão errados. Educá-los,
sem nada querer, sem querer que eles atinjam algum lugar; afinal,
que lugar existe para eles atingirem? Olhar para si e também
não julgar-se belo ou feio, gordo ou magro, bem de vida
ou pobre, inteligente ou limitado, bem relacionado ou solitário.
Os pensamentos dão significados irreais e portanto não
é necessário apego aos significados. É importante
soltar-se inclusive da idéia de soltar-se.
E se por um
milésimo de segundo você alcançou esse soltar-se,
penetrou no estado da mente vazia. Segundo Eckhart Tolle, autor
dO Poder do Silêncio, “ao penetrarmos mais profundamente
nessa área de mente vazia, começamos a perceber
o estado de pura consciência. Nesse estado sentimos a nossa
própria presença com tal intensidade e alegria que
os pensamentos, as emoções, nosso corpo, o mundo
exterior – tudo se torna insignificante comparado a ele”.
Permita-se
sair à rua apenas observando, consciente de que está
observando e não julgando absolutamente nada. Veja uma
pessoa e não a julgue bonita ou feia, elegante ou mal vestida.
Simplesmente veja. Veja as casas, os prédios, os carros,
o trânsito, os meninos no farol. Simplesmente observe. Vá
ao mato, à floresta e observe. Veja sua mesa de trabalho
e observe.
Este é
um treino zen para o cotidiano, onde sua mente começa a
ceder lugar à sua consciência. Viver consciente é
um estado de suprema realização e equilíbrio,
já que nada se espera e nada se deseja, e por nada se esperar
ou desejar, tudo se tem. O fazer nesse estado, deixa de ser uma
atitude e ganha a dimensão de celebração.
Imagine-se você sendo um pai, mãe, trabalhador, namorado,
estudante, vivendo em estado de consciência e não
mais empurrado de lá para cá pelos pensamentos aleatórios?
Isso
é equilíbrio.
Alex
Possato
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