Ontem
minha mãe ligou, como sempre faz. Pelo tom de sua voz,
notei que estava tensa e ansiosa. Isto geralmente acontece quando
ela está com muitos pensamentos na cabeça, principalmente
pensamentos de cobrança, do tipo “tenho que fazer
isso” ou “deveria ter feito aquilo”. Estes tipos
de pensamentos funcionam como um vírus altamente eficaz
no sistema mental, e podem paralisá-lo momentaneamente.
Tendo a cobrança interior, mas não percebendo exatamente
o que ela está fazendo, a tendência do ser humano
é buscar, através dos órgãos dos cinco
sentidos, algo ou alguém para cobrar também. É
como quando sentimos fome, e automaticamente qualquer cheiro ou
visão de alimento apetitoso nos desperta mais fome ainda
– porém, a fome é um sentimento interno, assim
como todos os outros sentimentos que temos. É sempre interno.
Nada que existe fora é capaz de provocar um sentimento
que não possuímos dentro. É ao contrário:
o sentimento interno faz com que busquemos, geralmente inconscientemente,
uma situação que reflita exatamente este sentimento.
Resultado: minha mãe começou a cobrar-me de algo
que não tinha o menor sentido. Falava algo como: “você
deve fazer isso”. Ninguém é obrigado a aceitar
presente de grego. Portanto, simplesmente recusei a aceitar. Deixei
com ela mesma.
Perguntas
anti-virus
A mente racional
não é o ser humano e os pensamentos não são
parte integrante do que é o homem. Pensamentos são
idéias repetitivas, somente isso, nada mais que isso. É
angustiante viver preso aos próprios pensamentos, como
se eles representassem algum papel vital. O pensamento utiliza
sempre arquivos de coisas que já aprendemos, ouvimos ou
captamos na nossa vida. Mas achamos que pensar é sinônimo
de viver. Não: pensar é ruminar informações
antigas.
O pensamento repetitivo deve ser domesticado por este “alguém”
que está além do pensamento. Descubra este alguém.
Uma das formas que se deve utilizar é: sempre que algum
pensamento começa a incomodar ao próprio “pensador”,
questione ele, com perguntas que irão rastrear o vírus.
Exemplo: o que ganho pensando assim? Quem disse que este pensamento
tal é correto? Quem disse que tenho que fazer tal coisa?
Se não fizer tal coisa, o que irá ocorrer?
Desidentifique-se
da mente pensante
Você
irá perceber que não existe a menor necessidade
de ficar repetindo os pensamentos. Para isso, é importante
se perceber, ver que você não é o conjunto
dos seus pensamentos. Tente perceber algum pensamento que seja
originalmente seu, exatamente, que não tenha sido colocado
por alguém. Existe? Mas você existia antes de poder
pensar, não é verdade?
O pensamento é um conjunto de softwares que podem ser modificados.
Portanto, não é você. O que você é
não pode ser modificado, não tem início ou
fim, não tem limites, fronteiras.
Pare, respire profundamente, sinta o ar entrando plenamente em
seus pulmões. Quando você faz isso, observando suavemente
o ar entrando e preenchendo cada espaço do seu corpo, não
é possível pensar. Observe por si mesmo. Faça
isso! Mas você continua aí, e alguém pôde
observar o ar entrando: este observador é o condutor da
sua vida, e faz parte do seu ser superior. Percebeu? É
um “você” sábio, amoroso e paciente,
que deixa os pensamentos acharem que é você até
o momento em que isto incomoda tanto que, automaticamente, este
ser superior começa a surgir, como o sol surge ao amanhecer.
É um processo natural e automático e já deve
ter acontecido com você algumas vezes durante a vida. São
momentos de êxtase, deleite, ou simplesmente entrega. Quando
você nasce, simplesmente vive, com os instintos, e não
tem consciência do pensamento racional. Depois, aprende
a pensar e a repetir seus pensamentos. Aprende mais coisas, e
seus pensamentos ganham mais conteúdo, mas não passam
de repetição. Até que eles começam
a cansar. O corpo não está mais satisfeito com tantos
pensamentos desconexos e desnecessários. Inclusive os próprios
pensamentos desconexos começam a mandar mensagens prejudiciais
ao organismo, trazendo ansiedade, estresse, obesidade, anorexia,
pressão alta, etc., etc., etc., verdade esta que é
tratada pela medicina psicossomática.
É neste momento onde o corpo e até a sua mente está
cansada desta vida tensa e pouco prazerosa que se abre espaço
para o Ser observador – ou qualquer outro nome que se queira
dar, que é você também, mas uma parte muito
mais tranqüila e produtiva, mostrar-se no comando. Quem se
deixa conduzir pelo observador, não tem necessidade de
pensar para decidir. Este observador, como o próprio nome
diz, somente observa – ele não julga, não
escolhe certo ou errado. Paradoxalmente, apesar de não
escolher, a decisão surge, e o pensamento serve de instrumento
para dar forma à decisão. Isto não cansa:
imagine só – você não tem mais necessidade
de ficar remoendo horas e horas algum assunto, para tomar uma
decisão. A decisão se toma por si mesmo! É
incrível! Mas é verdade! Os antigos chineses chamavam
isso de wu-wei, que mal traduzido significa não-ação.
É uma entrega a este Ser observador, que está em
você mesmo, e tudo acontece. Ao contrário do que
possa parecer, esta entrega é extremamente produtiva. O
que antes era feito com muito desgaste mental e físico,
passa a ser conseguido sem que nem se perceba. Você já
fez provavelmente muitas coisas sem ter percebido a ação
efetiva. É isso! Todos já fizeram uso deste wu-wei.
Basta deixar a mente pensante de lado. É possível
treinar. E é muito prazeroso! Entregue-se, sem medo! Você
perceberá realmente quem é e quanto a vida pode
ser graticante!
Alex
Possato
- 27/02/2007