Durante muito tempo eu queria
receber. Fui condicionado a isso. Quando criança vovó
dizia que se eu fizesse a limpeza de casa, cuidasse do cachorro,
tirasse boas notas e fosse um “menino de família”,
seria aceito por todos. Eu queria receber carinho e por isso cumpri
todos os itens, um pouco a contragosto, é bem verdade,
mas cumpri. E não recebi carinho. Pelo menos era esta a
sensação que tinha, quando criança. Papai
estava longe, em seu terceiro casamento, ou quarto, não
sei mais. Minha mãe sumira, após nos ter deixado
com os sogros. Eu simplesmente queria receber carinho, receber
amor.
Cresci. Quanto mais os anos passavam, mais coisas
fui aprendendo. Descobri que um físico legal, sarado, deixava
as meninas impressionadas. E assim dediquei-me bastante à
educação física, trabalhando em especial
meus bíceps, que hoje servem de cabide para minha filha.
Aprendi que um cara esperto, com muito conhecimento, também
é mais valorizado. Li muito, estudei muito, tinha conhecimento
de um leque de assuntos, e aquilo que eu não sabia, opinava
do mesmo jeito! Não poderia ficar para trás... Eu
queria ser aceito pelas meninas, pelos colegas, pela sociedade.
No fundo, eu simplesmente queria receber carinho, receber amor.
Mas não recebi.
Já mais maduro, disseram-me que deveria
casar, ter filhos, formar família. Fiz isso e tive muita
sorte em atrair uma esposa e filhos maravilhosos, com os quais
compartilho, brigo, aprendo e desaprendo o tempo todo. Acho que
agora vou receber carinho, receber amor, pensei! Que nada, apesar
da família adorável, permaneci tão vazio
como o saco do papai noel da Somália.
Então vi na televisão. O cara que
realmente é aceito por todos é aquele que deu certo
na vida, é empresário, tem casa própria,
um carro, bom padrão de vida. E se fizer obras sociais,
aí então estará a um passo do paraíso.
Ôba! Yabadabadú! Descobri como ser aceito e receber
amor e carinho das pessoas! Dediquei-me fielmente a esses itens,
da mesma forma que me dediquei a tirar o cocô do cachorro
e a limpar minha pequena casa, quando criança. Não
tinha tanto entusiasmo, mas era por uma boa causa: ser aceito!
E logo, logo consegui tudo: casa, empresa, padrão de vida,
status, cargos... Até bons trabalhos sociais realizei,
e neles realmente senti prazer. Mas... não me senti reconhecido,
apesar de muitos e muitos elogios. Eu queria receber carinho,
amor, e não elogios.
Acabou o estoque de atitudes externas. Tudo o
que eu poderia fazer para ser reconhecido e amado eu fiz e...
não deu certo. Voltei-me, então, para as atitudes
internas. Estudei diversas tradições espiritualistas,
principalmente o zen budismo e o taoísmo, onde o foco é...
o vazio. Estudei neurolingüística e entendi que todas
as crenças que me fizeram ir atrás de sonhos externos
eram somente... crenças, idéias que alguém
falou e que só são reais enquanto eu acredito que
são reais. Aprendi a me observar, olhar os pensamentos
e saber que eles também são só... pensamentos.
Senti muitas emoções, mais até que o Roberto
Carlos. Porém, olhando nos olhos de cada emoção,
seja ela agradável ou não, não sobra nada.
Emoção é só emoção e
deixa de ter sentido se não dou mais sentido a ela.
Tudo ficou vazio e, por um instante, sem sentido.
Isso dá uma espécie de agonia, pois a mente adora
dar sentido para as coisas... Porém, não havia sentido.
Só havia uma coisa. Uma coisinha. Era uma tênue luz
brilhando no fundo de um corredor. Fui até a luz, ainda
vazio. E subitamente comecei a perceber que não havia nada
vazio. Cada respiração de ar era muito cheia. As
paredes eram cheias. O escuro era cheio. As lágrimas eram
cheias e o universo todo era muito cheio. Sempre foi, mas minha
mente estava tão cheia de “coisas que eu tenho que
fazer para ser reconhecido e amado” que era impossível
ver que nada disso era necessário. A mente racional quer
muita coisa, porque não enxerga que já possui tudo.
O querer insistentemente cega. O esvaziar preenche.
Foi somente aí que recebi aquilo que tanto
procurei fora. Recebi carinho. Recebi amor. E tive a oportunidade
de vivenciá-lo. O amor vem lá de dentro, lá
do fundinho, onde não há mais nada, e se espalha
para fora. Assim, a família fica colorida. O trabalho fica
colorido. As obras sociais ficam coloridas. Até os medos
e emoções ficam coloridos.
Quando
se toca o vazio, a verdadeira vida começa, mas de uma forma
completamente diferente do que era antes. É necessário
acolher a mente com todos os seus pensamentos e emoções
e brincar com ela, assim como brincamos com crianças. E
tomar conta da criança, para que ela não “monte
em cima” e se ache dona da casa. Se não fazemos isso,
começamos a achar que a vida é séria e até
o vazio é sério. Como pode ser sério o vazio?
Vazio é vazio, e só. Se levo a minha mente a sério,
tudo começa a ser chato e preocupante. Começo a
ficar cego, novamente. Cada passo ganha um significado e dar significado
às coisas é como dar nome às nuvens. O vazio
não tem significado. Ele, em si, já é o significado.
Alex
Possato