Hoje
eu estava parado na fila do supermercado, aguardando a minha vez
para passar. Na minha frente, havia uma senhora, por volta dos
47 anos, baixa e corpulenta, cabelos pretos, roupas e ar de classe
média alta. Seu rosto aparentava um mal humor desses que
parece já marca registrada da pessoa, um desagrado com
as coisas da vida, que provavelmente não andavam de acordo
com o que ela queria ou achava adequado.
O carrinho de compras estava lotado. Iogurtes de diversos tipos,
massas prontas, geléias, enlatados... somente produtos
das melhores marcas.
Num gesto casual, sem alterar a expressão de enfado do
rosto, ela retirou da gôndola uma revista que hoje está
na moda, destas do tipo viva naturalmente, vida simples e qualidade
de vida, e colocou-a no alto da pilha de compras.
Consumismo
e vida simples?
Madre
Teresa de Calcutá iniciou suas obras na India, com enormes
restrições financeiras: ela solicitara permissão
para sair da segurança e conforto do convento para trabalhar
pelos pobres – pobres de bolso e de alma. Ao pisar nas ruas
sujas e barulhentas de Calcutá, em meio a vacas, bicicletas
e motos, milhares de pessoas que dormem, comem, vivem e morrem
literalmente nas ruas, a religiosa portava uma pequena mala e
dinheiro para poucos dias de aluguel de um quartinho simples.
Madre Teresa estava entregue e amparada por um amor ao pai maior.
Ela não precisava de mais nada. Não necessitava
de compras, para sentir-se preenchida.
Talvez esta seja uma imagem melhor de vida simples, que também
não é a minha, embora me dê um certo arrepio
de êxtase ao me imaginar nesta situação de
absoluta entrega material, e perfeita comunhão e confiança
em Deus.
Sensação
de satisfação ou de insuficiência
Nós
não queremos consumir por vontade própria. Somos
induzidos e condicionados segundo a segundo pela propaganda e
marketing. Um bebê não nasce querendo a fralda da
marca x. Não quer nem mesmo uma fralda. A única
coisa que o ser humano nasce querendo é o seio e o aconchego
da mãe, e mais para frente, a referência masculina
e proteção do pai.
É exatamente aí a questão. É este
querer primordial que deixará marcada a sensação
de satisfação ou insuficiência. Se você
foi amparado emocionalmente quando pequeno, os desejos de carinho,
amor e leite foram satisfeitos, carregará consigo uma sensação
de satisfação para o resto da vida, e com isso não
cairá facilmente na tentação do consumismo
desenfreado. Caso contrário, tenderá a preencher
o vazio interior com enlatados, doces, roupas e produtos dietéticos.
Muitos
de nós não recebemos o amor suficiente dos nossos
pais e buscamos suprir esta carência adquirindo coisas externas.
Mas uma carência interna só pode ser suprida por
um preenchimento interno. Nada que existe nas prateleiras pode
preencher o vazio interior. E o que pode?
Entregar o coração ao amor do pai maior é
o único caminho. Este amor é suficiente para trazer
a reconciliação com papai e mamãe, aceitando-os
da forma que eles foram e são, afinal, se eles não
fizeram mais, não deram o amor que esperávamos,
era porque também não receberam mais dos próprios
pais.
Não ter recebido o amor dos pais é uma grande dádiva.
É a possibilidade de manifestar o amor maior, o amor pelo
grande pai, que reconcilia, cura as feridas e preenche o coração,
nos tornando unos aos nossos pais biológicos.
O amor universal nos iguala a todos: pai, mãe, filho, doentes,
famintos, mendigos... Deixamos de ser um, para ser o todo. Deixamos
de ser mente, para vibrar o coração. Deixamos de
querer, pois já somos o todo.
A vida assim, realmente torna-se simples, pois no amor, pequenas
coisas são suficientes. Pequenas grandes coisas.
A vontade e necessidade de consumir exageradamente começa
a diminuir quando exercemos o direito de dizer: papai, eu o amo.
Mamãe, eu a amo.
Alex
Possato