O
que pode ser mais bonito, mais excitante e mais equilibrado do
que simplesmente andar, pé ante pé, e observar a
vida acontecendo ao redor, e nós acontecendo dentro da
vida?
Andar, pé ante pé, a cada passo uma nova aventura,
ver sem julgar, fazer sem esperar resultados, aceitando tudo simplesmente
como é. Nesta simplicidade que beira o vazio, vejo nossos
filhos crescerem, as vezes com sabedoria, as vezes sem, as vezes
com saúde, as vezes sem, e simplesmente aceito, porque
todos estamos mergulhados dentro de uma sabedoria muito maior,
que a tudo acolhe, a tudo aceita.
Pé ante pé, vagarosamente, deixo
para trás os gritos que proferi contra a pessoa que mais
amo... Não há mágoas nem dela, mas principalmente
em mim mesmo, porque não é possível um grito
ferir alguém, nem mesmo eu. Um grito é um som, e
um som não fere. O sentimento é uma idéia,
e idéias são mutantes. Deixe estar. Sei que em algum
dos próximos passos a amada estará novamente no
meu caminho, e então posso abraçá-la, ou
simplesmente pegar as suas mãos e convidá-la a andarmos
juntos, pé ante pé.
O milagre de caminhar em estado de absoluta presença,
aceitando toda a paisagem e acontecimentos que surgem, é
que, subitamente, não há mais nenhum motivo para
reclamação. Olho para dentro, vejo algumas feridas,
algumas mágoas, alguns desejos não cumpridos, e
simplesmente digo: olá! Eu sei que vocês estão
aí... que bom! E da mesma forma, vejo dentro de mim realizações,
conquistas, vitórias, e falo: oi! É, vocês
também estão aí...
Tudo o que há dentro de mim é passado, e como passado,
eu reverencio, não importando se são lembranças
agradáveis ou dolorosas. Inclino minha cabeça e
meu corpo pelo instante de um segundo, e continuo a andar, de
sentidos bem alertas para perceber o ar entrando e saindo do meu
peito, desde o momento em que as minhas narinas tomam contato
com esta preciosidade do universo, até o momento em que
ele desce trazendo energia e satisfação a todo organismo.
Como não agradecer a cada segundo esta
que é uma das dádivas mais preciosas que recebemos
ininterruptamente desde o primeiro choro e será o último
presente que receberemos antes do último suspiro? Como
um carro, uma casa, um parceiro, a saúde ou outra coisa
qualquer pode ser mais valiosa que esta deliciosa golfada de ar
que estou inspirando, lentamente, aqui e agora?
Pé ante pé, um passo depois do outro.
O tempo deixou de passar para ser celebrado o momento. Que bom
não necessitar mais de relógio, pois nenhum relógio
pode marcar o infinito, e neste pequeno instante, vivo o infinito!
Agora tenho que lhe pedir licença, minha atenciosa mente
que despeja estas palavras na tela do computador. Para realmente
estar presente, devo parar de me identificar com você e
com estas palavras e simplesmente observá-la, como alguém
ouve uma música no rádio. Eu estarei consciente
de que estou mergulhado neste eterno Agora. Se quiser continuar
falando, continue, mas eu só vou observá-la. Se
parar, melhor, pois então estaremos nós dois conscientes
de que sempre estivemos mergulhados neste eterno Agora, mesmo
que não percebêssemos.
Alex
Possato
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