A
mulher permanecia deitada sobre a cama, largada, pensando o quanto
aborrecida era a sua vida. Dia das mães... báh!
Ela nunca teve o apoio da própria mãe, preocupada
em trazer o dinheiro para casa, já que o pai bebia demais,
era carrancudo demais, mas efetivamente era frágil interiormente.
A mulher que estava deitada também era mãe: seu
primeiro filho viveu apenas um mês. Seu segundo filho viveu
vinte e poucos anos, falecendo num trágico suicídio.
Seu terceiro filho encontra-se vivo, feliz e muito bem.
A TV fala dos atributos da boa mãe: amor incondicional,
dedicação integral, sacrifício, moral, carinho,
gentileza... e ela pensava, enquanto acariciava os botões:
puxa, eu nunca fui boa mãe! Tentei desesperadamente manter
o meu casamento, enquanto meu ex-marido saía atrás
das amantes, e eu esquecia constantemente das crianças...
Nunca tive estrutura emocional para agüentar meus sogros,
tantos problemas, principalmente com o meu filho do meio, que
sofria de problemas neurológicos. Tive medo, muito medo...
Acabei largando as crianças com meus sogros. Pela propaganda,
parece que todas as mães são maravilhosas, menos
eu! Lamentava-se interiormente a desolada senhora.
O
sonho
Perdida nesses pensamentos não muito construtivos,
a senhora adormeceu profundamente. E teve um sonho muito estranho,
onde se via, mas muito mais bela, luminosa e transmitindo uma
sensação de imensa felicidade!
- Quem é você? Perguntou à sua própria
imagem.
- Eu sou você! Respondeu a sorridente criatura.
- Como você sou eu? Como eu posso falar comigo mesma? Além
disso, você é muito iluminada, feliz... não
sou eu de jeito nenhum!
- Quantas vezes você conversa consigo mesma? E quantas respostas
maravilhosas você ouve, para logo em seguida esquecer? As
respostas são suas, vem do seu interior, mas você
julga sempre que é de fora, porque não aceita que
dentro de si tenha tanta sabedoria!
A velha senhora sentiu um arrepio. Era verdade. Quantas coisas
maravilhosas ouvia dentro da sua própria mente, mas nunca
aceitara que estas coisas vinham dela mesma, afinal, considerava-se
um bagaço... Mas não se deu por vencida:
- Se você sou eu, por que não tenho a luz que você
mostra? Por que não sou feliz como você?
- Acalme, minha amada. A mente humana só pode ver aquilo
que deseja ver. O que você vê de bom na sua vida?
- Nada! Nadinha! Nunca fui feliz no casamento. Meu primeiro filho
morreu. Meu segundo se suicidou. Não consigo me dar bem
com as pessoas. Todo mundo está melhor que eu!
- Quem disse que um casamento deve durar a vida toda? A igreja?
Quem disse que uma vida acaba? Seus olhos? Quem disse que todas
as pessoas são comunicativas e simpáticas? A sociedade?
Quem disse que existe alguém melhor ou pior que outro?
Em que parâmetro? Quem inventou estes parâmetros?
Relaxa, meu pequeno “eu”... Você não
poderia ser melhor nem pior do que você é! Aos olhos
do Universo, tudo está absolutamente correto e em ordem.
- Mas eu não fui uma boa mãe... – respondeu
quase sussurrando a senhora.
- Quem disse? Você acredita em propaganda? Você foi
uma ótima mãe! Seu terceiro filho está se
dando muito bem, é um rapaz forte emocionalmente só
porque você faltou a ele na infância. Se ele tivesse
recebido muito carinho, muita mãozinha na cabeça,
teria ficado mole e incapaz, porque ele possuía uma energia
propícia a isso!
- Mas eu não criei ele assim, conscientemente. Eu só
abandonei!
- Ninguém abandona ninguém! Tudo ocorre como deve
ser. Ou você acha que o Universo iria permitir alguma coisa
que fosse contrário a Ele? Você acha que, se não
fosse para acontecer o que aconteceu, o Universo permitiria? Tudo
está de acordo, em perfeição... – respondeu
o Eu iluminado da senhora.
- Mas eu tenho o livre arbítrio... E não agi de
acordo... Fui incapaz...
- Alguém falou essa história de livre arbítrio
e você acreditou nela. Você crê em Deus, eu
sei. Você acha que o seu livre arbítrio – se
existisse - é maior que o poder de Deus? Você acha
que Ele não está ciente de Tudo? Perguntou amorosamente
o Eu iluminado.
As lágrimas começaram a rolar da senhora. No fundo,
ela sabia que tudo está de acordo com as leis do Universo,
mas ela não queria aceitar. A dor e o sentimento de culpa
se extinguiriam se ela se entregasse de verdade a Deus e ao amor
do Universo. Todo sentimento de ter sido incapaz desapareceria,
toda a cobrança desapareceria, toda a comparação
desapareceria. Permaneceria somente a luz, que é a única
existência real!
- Chore, chore, deixe que as mágoas se escoem, não
critique suas emoções, seus sentimentos. Você
não teve culpa em acreditar que eles eram reais. Mas não
são. Somente eu, a sua Luz, sou real. O resto é
papo dos homens. Este papo muda de época a época.
Mas a Luz nunca muda! Aceite-se como mulher, aceite-se como ser
humano, aceite-se como mãe! Você foi, é, e
sempre será a melhor mãe do mundo!
- Mas como posso perceber isso? Indagou a senhora, com um fio
de esperança nos olhos.
- Simplesmente aceitando que tudo está aí porque
o Universo permite. Nada mais.
Quando você se entrega a esta verdade, como mágica
você verá toda a maravilha do mundo! Entenderá
as belezas que você viveu nos anos em que foi casada, nos
outros anos de descasada também. Verá como seus
filhos foram exatamente aquilo que tinham que ser. Suas atitudes
foram adequadas, mesmo sem você perceber!
O melhor, a partir deste momento, Aqui e Agora, você será
Eu!
A senhora despertou num impulso! Uma energia estranha
percorria seu corpo numa velocidade incrível. Por um instante,
o mundo adquirira uma cor brilhante e maravilhosa. Ela levantou-se
e olhou no espelho: era a sua imagem feliz, jovem e radiante!
Subitamente, porém, ela começou a temer perder esta
sensação confortante e gostosa. Neste momento, a
imagem que ela olhava no espelho começou a se esfumaçar,
deixando aos poucos ver o aspecto apático da velha senhora.
Súbito, uma voz, que ela reconheceu ser a dela mesma, disse:
“lembre-se. A mente humana só reconhece aquilo que
quer ver. Quem é o ‘você’ que você
quer ver? A coitada? A pobrezinha? A incapaz? Ou a maravilhosa,
perfeita, corajosa e bela imagem? Você acredita que existe
alguma coisa ruim criada pela grande Sabedoria do Universo? Então
entregue-se à sua perfeição, meu lindo ‘eu’!
Renda-se! E viva a real felicidade...”
A senhora sorriu e... se entregou.
Esta
é a minha homenagem à minha mãe perfeita.
Alex
Possato 02/05/07