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Meu avô foi um grande companheiro
do meu personagem chamado Alex. Comunista convicto, estava sempre
disposto a contar detalhes da saga de Luis Carlos Prestes e sua
famosa Coluna, que atravessou todo o Brasil combatendo as tropas
federais, sem nunca ter sido derrotada. Enchia minha mente de
imaginação com as imagens das pilhas de café
sendo queimadas, ao lado das ferrovias que cortavam São
Paulo, depois da crise mundial de 1929. Por algum milagre deste
universo holístico, o cheiro de café queimado impregnava
o ambiente, durante estas narrativas. Quase que eu podia tocar
na massa para fazer pão que era feita por, acredite, massa
de macarrão dissolvida. Este era um alimento comum durante
a escassez de produtos ocorrida no período da Segunda Grande
Guerra.
Vovó também gostava de lembrar o passado. Falava
das suas andanças pela região de Lorena, no Rio
de Janeiro. Contava com orgulho a criação que seu
tio Roberto lhe dera, um médico negro severo e respeitado,
que depois tornou-se prefeito em Rezende. Falava das suas primas
e primos, referindo-se a eles como meninos e meninas. Lia poesia
de Castro Alves e textos de Machado de Assis, e depois colocava-me
para declamar em voz alta, no meio da cozinha. Embora eu não
reconhecesse naquele tempo, vovó também foi uma
grande companheira.
Mas a maior companheira que tive foi uma menina. Sempre fui apaixonado
por ela, mesmo quando, por diversas vezes, ela infernizou minha
vida, chegando ao cúmulo de chamar-me de incompetente,
medíocre, covarde, fraco, indeciso... Brigas de amor. No
fundo, ela não vive sem eu. E eu não vivo sem ela.
Nossa relação foi tão intensa que, durante
muito tempo, cheguei a me confundir com ela.
Ah, menina mimada! Cheia de charme, volúvel, temperamental.
Fala pelos cotovelos! E em qualquer hora. Acha-se o máximo,
que sabe tudo! E eu acreditei muito no que ela falava! Ela me
conduziu anos e anos, como um verdadeiro marionete, falando o
que eu tinha que fazer, que pensar, que gostar, que criticar.
O amor cega! Porém, um dia a maturidade chega, e desfaz-se
o encanto. Percebi que minha menina nunca crescia. Suas idéias,
no fundo, eram repetições das idéias dos
outros. Ela falava para eu fazer o que somente ela via nos outros
– obviamente, não serviam para mim, para o que eu
era, para minhas experiências, para minha ambição.
Dentro de mim alguma coisa falava: aprende, rapaz. Mergulha na
fé! Você já é! Descobre este papo de
milagre! Vá fundo! Você pode! E a minha menina dizia:
sofra! Dedique-se! Rasgue suas emoções até
o limite! Mas, temperamental como só ela, a danada colocava
pimenta na minha vida: vê a sua avó? Ela está
lhe perturbando! Larga ela, cara! Um dia você volta um santo,
um guru, e abençoa ela. Ela até ajoelhará
sob seus pés, pedindo seus sábios conselhos! E você,
altivo, lhe concederá o perdão... Como São
Francisco. Como Jesus!
Puxa vida, como é difícil conviver com você,
menina! Você fala tanto que as vezes não sei se sou
eu ou você que está dizendo alguma coisa. Eu a amo,
não consigo viver sem você, mas às vezes quero
lhe afogar! Cale a boca, matraca!
“Puxa... Você nunca me tratou assim. Tudo bem, eu
fico quieta, porque também o amo... Boa noite!”.
A desgraçada sempre soube me comprar, me seduzir, levar-me
à culpa. Habituei-me a conversar com ela sobre qualquer
decisão que ia tomar. Foi assim na morte do meu irmão
e do meu avô. Quando comecei a decidir sair do Brasil, para
me encontrar. Isto já faz mais de vinte anos. É
engraçado como ela fala como matraca ainda hoje, querendo
me convencer das coisas que acha correto. Ela é como uma
filha. Aquela filha tagarela, que fala sem parar. Por ser inteligente,
ativa, deixo que ela fale. E quando menos percebo, estou fazendo
tudo por ela, sem ao menos analisar se é proveitoso ou
não o que estou fazendo.
É, esta era a minha mente. Uma filha que foi sendo aos
poucos acrescida de informações, de emoções,
de sensações, mas, por incrível que pareça,
nunca crescia na medida em que eu entendia nossa relação
de pai e filha. Quando deixava o papo correr, e minha filha tinha
a habilidade de fazer o que queria comigo, muitas vezes eu nem
percebia que quem mandava no pedaço era eu. Porém,
mais atento e observando a minha mente-filha-companheira à
distância, sabia muito bem que ela era uma criança
e eu o adulto. E sempre será assim.
- Durma, querida. Descanse. Desacelere. Eu estou aqui sempre ao
seu lado, e nada de mal pode lhe acontecer... Para que a correria?
Para que tantas dúvidas? Para que tanta razão? Descanse...
Alex
Possato
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