Vivemos uma época onde as atitudes são
mais valorizadas que o sentimento. Desde crianças somos
ensinados a sentar de determinada forma, não falar palavrão,
ter determinado tom de voz diante dos adultos, abotoar a camisa
até em cima... Depois, crescemos, ficamos adolescentes
e a galera diz para sentar com as pernas mais abertas, falar palavrão
e sacanagem, gritar em público e mostrar o peito tanquinho
ou o decote profundo.
Maduros,
começamos a voltar aos hábitos dos pais, com algumas
adaptações, preparando-nos para ensinar as mesmas
regras que aprendemos quando crianças para os filhos que
virão. Fechamos as pernas, melhoramos o vocabulário,
falamos mais baixo e abotoamos as camisas. É um tal de
abrir camisa e fechar camisa!
De maneira geral, o ser humano é educado para ter atitudes
externas, ter o comportamento correto e evitar o comportamento
errado. Acaba-se confundindo comportamento com sentimento.
Por
exemplo: um casal tinha uma vida muito respeitável. Ele,
um vendedor externo, distribuía equipamentos agrícolas
pelo interior de São Paulo, montado numa kombi. A mulher
fazia uniformes e outras costuras para ajudar no orçamento
doméstico, além de cuidar das quatro filhas. O marido
era do tipo calado, sério e de certo modo até rígido.
Muito moralista, tentava controlar as filhas o máximo possível,
receoso de que elas se perdessem no caminho dos namoros infinitos.
A mulher respeitava e até tinha medo desse homem. Era muito
comum ele se fechar no quarto para ficar horas vendo televisão
ou lendo livros, e não querer ser incomodado de forma nenhuma.
O relacionamento não era bom, mas pelo menos tudo funcionava
– assim pensava a esposa. As meninas cresceram, o comportamento
daquela família era absolutamente normal e não ofendia
os olhos dos vizinhos ou dos parentes.
É
isso que a sociedade gosta: pessoas que tenham comportamentos
que não ofendam.
Mas o que havia por detrás daquele comportamento normal?
O marido tinha um relacionamento extra-conjugal no interior, onde
teve uma filha que mais tarde veio procurar “seus direitos”
na partilha. Bebia muito e destruiu diversos carros, além
de dificultar em muito a vida financeira da família –
embora ninguém de fora percebesse. A esposa tinha vontade
de ter um relacionamento melhor e até desejava outros homens,
mas por medo do marido, nunca “pulou o muro”. O relacionamento
dentro daquela casa, entre todos, era baseado em postura, medo,
comportamento e por isso todas as pessoas envolvidas sofreram
e sofrem até hoje.
O
amor está por trás de todo comportamento
Ao
invés de viver baseado em comportamento certo ou errado,
seria interessante o homem viver baseado no amor interior que
todos possuem.
Nesta
família que citei havia amor em todos. O marido amava profundamente
a esposa. Tanto que a infidelidade provocou um sentimento de culpa
tão grande que ele se entregava ao álcool, ao cigarro
e à fuga para dentro do quarto. Isso somatizou num câncer
fulminante de pulmão, que o vitimou por volta dos cinqüenta
anos de idade. Mas ele julgou que o comportamento – a infidelidade
– era mais forte que o amor, que é um sentimento.
Não teve coragem de se entregar ao amor e preferiu se calar.
Assim como a esposa também se calou: preferiu preservar
a postura do respeito ao marido durão, ao invés
de deixar que o sentimento de amor se expandisse, modificando
até o medo que ela sentia pelo homem que dormia com ela.
Para que “os outros” não saibam as atitudes
erradas que fizemos, para que os vizinhos não comentem,
para que os parentes não se intrometam na nossa vida, prefere-se
viver uma vida de postura, encenação, fantasia...
O
amor interior perdoa tudo. O amor interior aceita todas as nossas
atitudes “erradas”, porque não existem atitudes
erradas. Tudo o que fazemos está interligado e não
existe exatamente a atitude errada: no caso do casal acima, a
infidelidade do marido encaixou-se perfeitamente com a frieza
e medo da esposa. Nem ele nem ela estavam errados. Simplesmente
estavam presos em comportamentos, ao invés de deixar o
amor entre eles fluir, fechando as feridas e abrindo uma vida
completamente nova!
Por
medo do julgamento deixamos o amor preso! Mas estamos o tempo
todo sendo julgados
por todos. Porque a maior parte das pessoas está analisando
o tempo todo o comportamento do outro, para comparar se
o próprio comportamento está adequado. O amor está
dentro e flui quando deixamos de julgar, em primeiro lugar, a
nós próprios. Não importa o que tenhamos
feito: damos muita dimensão às nossas atitudes exteriores,
como se nós, como seres humanos carnais, fôssemos
tão significativos para o universo! E sofremos, sofremos,
sofremos...
O
homem não é o seu corpo externo e nem as atitudes
que realiza com o seu corpo externo. O homem, como matéria,
é tão insignificante quanto um micróbio!
No universo estima-se que existam setenta sextilhões (70
000 000 000 000 000 000 000) de estrelas iguais ao Sol. Somente
na nossa galáxia, existem 100 bilhões de estrelas
como o Sol. E também falando da Via Láctea, estima-se
em 600 milhões de planetas habitáveis. Somos muito
pequenos, pequeniníssimos em relação ao todo.
As
atitudes feitas pelo homem são tão importantes ao
universo quanto as atitudes que uma formiga realiza em seu formigueiro.
A única coisa que une o homem, o universo, a formiga e
a bactéria é o amor inerente a todos os seres, todas
as coisas existentes. Este amor é a base da formação
da matéria e é a base para a realização,
a felicidade. Não é necessário criá-lo
porque ele já é... Olhe para si, descubra-o, tome
posse...
Alex
Possato