o amor se manifesta no conflito
 
 
   

Milton é um sujeito grandão, corpulento, mas não barrigudo. Seus cabelos sempre impecavelmente onduludos, variando de tonalidades entre o cinza claro e o cinza escuro, deixam transparecer a sua meia-idade, mais pra idade do que pra meia. O voz era um diferencial: alta, forte como um tenor, sempre pontuada e antenada com as corretas normas da língua pátria. 20 anos dedicando-se quase que diariamente na sua religião lhe deu um enorme conhecimento teórico da doutrina, como também um jogo de cintura invejável para palestras e apresentações diante de grandes públicos. De vinte a dois mil espectadores, a quantidade não era problema para ele, que tirava de letra uma boa exibição.
- E a empresa, como vai? Perguntei-lhe, inocentemente.
- Sabe, depois que eu quebrei quando fui assaltado, levaram-me todos os meus computadores e meus softwares, nunca mais me reergui.
- E agora, o que você faz?
- Tenho uma empresa de comunicação visual, mas também não vai lá estas coisas. O pior é a desarmonia! Como é difícil trabalhar com funcionários, não é verdade?
Concordei, para não entrar em discussão desnecessária. Ele não era o único sujeito que conheci, profunda e honestamente envolvido numa religião, que vivia a paz espiritual somente nos momentos de rituais, nos aconselhamentos ou palestras da doutrina. Colocava o pé na rua, era um Deus nos acuda, com o perdão da expressão! Briga com a mulher, dificuldades financeiras constantes, péssimo relacionamento com as pessoas, até desfalques e adultério se via...

A vida coloca em prova nossa espiritualidade

É um êxtase olhar nos olhos do público e perceber que aquela palavra inspirada arrancou suspiros emocionados. Ser tocado, abraçado por dezenas de pessoas que você nunca viu, dizendo como o seu trabalho espiritual é maravilhoso. E daí, andando nas nuvens, ir ao canto silencioso do templo ou igreja e agradecer do fundo da alma a Deus este momento de graça. Sentir como se as paredes do templo o amparasse, protegendo-o de qualquer mal que pudesse vir da civilização. Vivi algo parecido. Mas sempre tinha o momento de ir para a rua. O momento de ouvir a mulher reclamar que não estou sendo competente suficiente na condução dos negócios. Ouvir o professor dizer que tenho que estar mais presente com os estudos do filho, porque ele está muito mal e desligado. Ver que o saldo no banco estourara e os juros estavam comendo a renda do dinheiro que não existia. Sentir o motor do carro engasgar para não mais girar, deixando-me na mão de um orçamento caro em hora imprópria.
Vivi algo parecido.
E percebi o seguinte: se os momentos em que vivo a tal da “vida comum” é a porcentagem maior da minha vida, e também a que mais me importa, porque afinal de contas sou responsável por um trabalho, uma empresa, uma família e filhos, tenho que fazer desta vida “normal” a minha vida espiritual. Estar em harmonia com uma imagem de gesso ou estátua de bronze é mais fácil que estar em paz com o meu vizinho casca-grossa... É exatamente por isso, que ao buscar estar em harmonia com o meu vizinho casca-grossa, entro em contato profundo com a verdade que a estátua de bronze queria me transmitir: ele é você!
Todos os caminhos espirituais são belos e úteis. Todos. Mas a vida é o relacionamento que temos com papai e com mamãe. A vida é como encaro o meu marido ou minha esposa. Não tenhamos ilusão: é no casamento e na família onde mais somos provocados e não tem nenhum problema em brigar e virar a cara para o outro. Mas aí existe o próximo passo: o reconhecimento do amor, apesar da briga, e a reconciliação se faz presente. Sem humilhações, sem forçar, o amor recompõe tudo com naturalidade, se nossa mente permitir. Onde existem brigas, existem pessoas que querem ser aceitas, e onde existem pessoas que querem ser aceitas, existe o amor. Sempre! Buscar e encontrar este amor escondido nas desavenças é profundamente mais gratificante que encontrar um tesouro de ouro e pedras preciosas. É divino, puramente espiritual.
Este tipo de insight dificilmente é encontrado nos ambientes religiosos, porque lá existe a paz e harmonia provocada pelo respeito à instituição e, portanto, forçadas. Não quero dizer para buscar propositadamente o sofrimento e os conflitos para então perceber o amor na situação. Este é outro conceito errôneo, de que o sofrimento auxilia na busca espiritual. Tenho certeza que cada um já possui a devida carga pessoal de sofrimento, medo, trauma, conflito, rejeição, sem necessitar ir atrás de mais... Tudo aquilo que nos recusamos a aceitar, seja o vizinho casca-grossa, a nossa situação financeira, ou a baixa auto-estima, representa um conflito, uma desavança, e por detrás dele, existe o amor. Tanto faz se o conflito é interno ou externo, ao ser exposto, aceito, passado pelo filtro do não-julgamento, percebe-se o amor na situação, e muitas vezes ocorrem coisas inexplicáveis, harmonizações instantâneas e até curas. Isto é mais que um conceito espiritualista. É uma afirmação terapêutica, comprovada por inúmeros casos de remissão de sintomas durante terapias.

Alex Possato
02/07/2007

 
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