Aquela cerca nunca fora tão bela! Os fios
lineares percorriam toda a extensão do campo, até
quase se perder de vista, para então, num ângulo
de 90º, continuar por um montão de espaço,
contornando as construções acinzentadas. Por detrás
dela, erguiam-se os morros queimados pelo inverno rigoroso. A
vegetação era muito rala, mas mesmo assim, contrastando
com o fundo do céu de um azul profundamente azul, deixava
uma impressão de um quadro impressionista. O ar estava
frio e entrava feroz em minhas narinas, e um vento leve castigava
o meu rosto, já meio desidratado e avermelhado. Mas mesmo
assim, a sensação de liberdade era indescritível.
O divino parecia presente. Não, não era verdade.
Ele estava presente! Era a única presença que se
podia perceber! Descobri neste momento que ele sempre estivera
presente, antes mesmo de existirem as cercas, os guardas, os prisioneiros.
Ele estava presente em cada um dos gestos dos algozes, em cada
grito de desespero dos meus companheiros, em cada lágrima
derramada pela dor e fome, em cada berro enraivecido dos soldados
que se fizeram violentos.
O
arame farpado carregava pedaços de tecidos do uniforme
listrado dos meus amigos, e também pedaços de carne,
que ali ficaram como marcas do desejo de liberdade, que os fugitivos
achavam que estava do lado de lá da cerca...
E eu estava livre! Do lado de dentro da prisão e... absolutamente
livre! Não havia raiva dos soldados, nem medo da dor ou
da perda. Eu estava livre como os corvos que voavam grasnando
por sobre minha cabeça.
A liberdade, descobri, estava dentro da minha mente. E o sofrimento
também. A vida não acontecia fora de mim, mas dentro.
E eu podia escolher viver livre ou viver sofrendo! E escolhi a
liberdade, mesmo vivendo num campo de horrores!
A
vida como ela é...
Presto
uma homenagem no texto acima à vida e obra do psiquiatra
austríaco Viktor Frankl, judeu, prisioneiro durante quatro
anos em Auschwitz, o temível campo de concentração
polonês. Este excepcional homem, intelectual respeitabilíssimo
e fundador da chamada Terceira Escola Vienense de Psiquiatria,
contemporâneo de Freud e Adler, criador da logoterapia,
podia ter visto toda a sua carreira e trabalho naufragado, deixando-se
abater pelo desânimo, medo e sofrimento diante de uma morte
quase certa.
Mas ele transformou este destino que poderia ser trágico
no grande aprendizado da sua vida, e percebeu na prática,
convivendo com as terríveis condições do
campo de extermínio, que não é o sofrimento
físico e emocional que derruba o homem: é a recusa
em aceitar a vida como ela é: suas doenças, suas
crises, seus acidentes, suas tragédias, seus problemas...
Frankl descobriu que a falta de aceitação é
uma fuga da mente, que impede o ser humano de viver integralmente
e descobrir o sentido da própria vida. A mente está
fechada em si, no que acha que são seus problemas, e não
consegue ver mais nada que isso.
O
que temos que aceitar?
Em
nosso trabalho diário, encontramos muitas pessoas perdidas
em seus problemas. Não há nenhum problema em...
ter problema! A questão é: o fato de ficar transitando
em torno dos problemas só traz mais... problemas! Muitas
das coisas que carregamos conosco não são nossa
bagagem: verificamos que um fator extra-mente faz com que tenhamos
um estranho senso de responsabilidade pelos problemas dos nossos
familiares, sejam eles pais, irmãos ou filhos.
Aceitar os nossos problemas, porém, deixando os problemas
dos outros, mesmo que sejam parentes próximos, para eles,
é prova de amor e sabedoria. Esta percepção
é trabalhada em nosso consultório através
da terapia de constelação familiar e sistêmica,
com resultados fantásticos: a sensação de
liberdade pode chegar à mesma sensação que
Frankl sentiu, ao perceber-se livre, mesmo vivendo num campo de
extermínio, estando perto da morte em vários momentos.
Aceitar é extremamente simples, mas pode ser também
muito doloroso, porque teremos que transformar crenças
que permaneceram em nossas mentes durante anos, décadas...
Aceitar que o gordo é belo. Aceitar que existe a morte
e a perda. Aceitar que é possível ser feliz com
dívidas. Aceitar a separação. Aceitar a injustiça
para conosco. Aceitar inclusive o próprio medo, ciúme
ou inveja. Aceitar até o não conseguir aceitar.
Este trabalho de autoconhecimento realizamos com programação
neurolingüística, embora existam diversos outros caminhos
que podem ser utilizados.
A partir daí, o ser humano está apto a perceber
o seu sentido de vida, que será absolutamente individual,
único. Somente livre do peso desnecessário, estará
pronto para voar. Somente livre de crenças limitantes,
o ser poderá tomar posse da sua própria missão,
que não é nada criada pela mente, mas surge como
uma energia arrebatadora, onde fica impossível de resistir
ao seu apelo.
Convido
você a repensar a sua vida: se por um instante, um milagre
eliminasse todos os problemas que o preocupam, qual seria o rumo
da sua vida? Alguma força arrebatadora o impeliria rumo
a um lugar desconhecido, mas excitante? Não? Sim? Se a
resposta é afirmativa, talvez esta seja a sua missão.
Se não, que tal descobrir este caminho prazeroso, onde
os problemas perdem o sentido, e o verdadeiro sentido de vida
surge radiante? Para isso, só é necessário
uma coisa: querer.
Alex
Possato