Brigas
acontecem. Volta e meia sou pego de surpresa com as discussões
internas da minha mente, onde ela quer impor seus conceitos de
certo e errado em cima de tudo e todos, ocasionando confrontos
quando estas opiniões são externadas. A minha mente
é um conjunto de valores, de crenças, de regras,
de certo e errado, de conceitos... A minha é assim, a sua
é assim. Assim é a mente de todas as pessoas.
Uma mente nunca é igual à outra. Alguns poucos pontos
coincidem, outros não. As brigas ocorrem porque quero impor
os pontos não coincidentes às outras pessoas. As
vezes quero impor pontos que dentro de mim também estão
em conflito: idéias pessoais entram em conflito com outras
idéias... Quero emagrecer mas gosto de comer. Quero comprar
um carro novo mas tenho que economizar. Quero conquistar uma pessoa,
mas sinto-me feio e acabado. Quero estudar mas não tenho
tempo. Quantas crenças existem dentro de uma mente em conflito?
Este conflito, mais cedo ou mais tarde, irá refletir no
mundo exterior, nos relacionamentos, na saúde, no trabalho...
Investigando
o briguento
Desejando
resolver os conflitos e o incômodo mental e físico
que eles provocam, começamos a buscar as causas: por que
eu sou assim? Quais são as idéias certas para mim,
e quais são as idéias erradas para mim? Esta é
uma atitude que geralmente temos: querer descobrir as razões,
o certo e o errado. E jogamos esta informação na
mente racional. O que acontece, então? A mente racional
elege novas crenças, novas idéias para se apoiar
em sua opinião. Escolhe um lado como o correto. A questão
é que o lado que foi preterido também existe dentro
dos conceitos da própria mente, e sente-se ferido, injustiçado,
discriminado, e logicamente exercerá força para
reverter o quadro. Assim, se escolho fazer regime, o lado que
gosta de comer irá ficar encolhido, em prontidão,
esperando somente um descuido na defesa racional para disparar
o contra-ataque. Normalmente isto ocorre nos momentos de tensão
ou conflito, quando o contexto emocional acaba predominando sobre
o contexto racional. Isto facilita a idéia que estava reprimida
e, por isso, cheia de energia, a se manifestar com uma força
extraordinária.
Novamente: a mente de qualquer ser humano é um aglomerado
de idéias, crenças, valores, e muitas vezes existem
crenças conflitantes dentro dela que, de forma alguma,
irão pacificamente entrar num acordo. É como quando
existe uma briga entre dois irmãos, e um dos lados é
preterido: o outro, obviamente, fica magoado, e não existe
aí a noção de razão ou não.
A mente humana funciona através da formação
de imagens, e a palavra razão não desperta nenhuma
imagem e, por isso, não existe objetivamente. Razão
não existe, para a mente humana. Por isso, as razões
diferem de pessoa a pessoa, povo a povo, cultura a cultura. No
fundo, tudo o que existe na mente humana é uma punhado
de imagens, para as quais são dados significados, muitas
vezes incongruentes entre si, que podem ser alterados no momento
que quiser.
Resumindo: a mente racional é um eterno foco de conflito.
Por buscar sempre um lado correto, acaba reprimindo outro lado,
provocando impacto interno, já que ambos os lados pertencem
à mesma mente.
A
não-escolha
Existe
atualmente um conceito bastante difundido, onde a base para o
sucesso pessoal é o controle mental. Embora em vários
momentos da vida é necessário escolher um lado,
ter uma opção, manter um rumo, se isso é
feito através de um controle mental, ou seja, optando por
uma parte e oprimindo a outra, mais cedo ou mais tarde esta parte
reprimida se manifestará. O que é controle mental?
Controlar sob que parâmetro?
Objetivamente, controle mental significa amarrar, amordaçar
e manter preso os dois irmãos, para que eles não
briguem, e de vez em quando soltar um deles para que possa se
manifestar. O outro continua preso. Imagine um pit-bull amarrado
e preso durante um bom tempo e depois solte-o: dá para
imaginar?
A confusão básica das pessoas que adotam o controle
mental como técnica de desenvolvimento é uma só:
a mente é sempre um baú de conceitos e crenças,
mas ela não é o ser. Você não é
a sua mente! Você não é conceitos ou valores,
nem o conjunto deles! E isso é muito simples para entender:
se os conceitos podem ser completamente substituídos, trocados,
e os são, efetivamente, durante a trajetória da
vida, portanto, não podem ser confundidos com o ser, o
real programador que domina não somente os softwares (suas
crenças), como também o sistema operacional (a capacidade
do seu sistema).
Não há necessidade de considerar uma crença
melhor que outra. Quando existe um impasse, pode ser necessário
escolher um lado, ou às vezes, não escolher nenhum
e... parar. Parar de pensar.
Mas como parar? A mente não consegue parar, não
é verdade? É verdade, mais ou menos. Mas se existe
alguém que pode observar a mente que não para, este
alguém, este observador, está estático, não
é? É ele que irá decidir e não escolher.
Vai olhar para os pensamentos como um filho, amorosamente, e simplesmente
falar: deixe estar... O ser não é a sua mente racional.
Qualquer treinamento que se faça baseado em tornar mais
capaz e competente a mente racional, irá gerar conflitos
internos. O ser, este programador (que é você mesmo)
é uma fonte de potencialidade infinita, não evolui
nem necessita acrescentar habilidades.
O trabalho é se desidentificar da mente racional como sendo
“você” e se entregar ao seu ser. Atuar com o
foco em quem você realmente é, e não na confusão
mental que é a totalidade dos pensamentos que percorrem
nossa mente diariamente. Não é difícil. No
momento em que existe um conflito, interno ou externo, acostume-se
a parar e a não escolher. Deixe estar. Não foque
nos pensamentos. Você descobrirá uma capacidade incrível
de solucionar crises, simplesmente não fazendo nada, sem
esforço, sem trauma, deixando as coisas acontecerem.
Alex
Possato - 26/02/2007l